DEUTERONÔMIO – XVIII – LAVANDO AS MÃOS DA CULPA

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diciembre 22, 2014 by Bortolato

Lavando mãos

Lavando mãos

Há muitos que são mortos sem que se tenha sequer uma pista da autoria do homicídio.   Que temos a ver com isso?   Se nada sabemos sobre o caso, será que basta o encolher de ombros, estampar uma expressão de inocência no rosto, e tudo estará bem?    Não podemos dizer que não houve culpa e nem dolo.   E se o que aconteceu foi algo intencional?   Em Gênesis 9:5,6 Deus disse a Noé e seus filhos:

“Certamente cobrarei o vosso sangue, o sangue da vossa vida; eu o cobrarei de todo animal, como também do homem; sim, cobrarei da mão de cada um a vida do seu próximo.  Quem derramar sangue de homem, terá o seu sangue derramado pelo homem, porque Deus fez o homem à Sua imagem.” (versão da Bíblia Almeida Século 21)

Muitas injustiças são feitas neste mundo.   Na cultura e no pacto social que Deus revelou na Antiga Aliança, havia muitas coisas que o povo fazia, que chegava à mostra pública, e outras ocultas, mas que tinham de ser tratadas de conformidade com a ótica divina – e Ele, o Senhor, sabedor dessas situações, quis revelar a todo um povo como reagir a tais circunstâncias, a fim de que esse Seu povo pudesse ter condições de ser mais semelhantes ao Seu caráter puro e santo.  Mais uma prova do cuidado paterno do Pai para com Seus filhos.

O Deus Onisciente conhece até os nossos pensamentos, as intenções do coração, e a Sua Palavra discerne até mesmo o que provém da alma ou do espírito (Hebreus 4:12).   Ele conhece tudo o que se passa dentro de cada pessoa, e poderia impedir que os maus projetos se desenvolvessem, exteriorizando o mal, mas…   Ele não bloqueia as decisões da nossa vontade, pois se assim o fizesse, estaria criando apenas humanoides, robots, zumbis e coisas afins.   Nenhum pai gostaria que seus filhos fossem como meras máquinas, que permanecessem completamente inertes, parados, em estado de  inanição, até que botões de “enter”  ou “start” fossem acionados, e então os “programas” passariam a ser executados.   Isto seria uma grande frustração paterna.

Nós, humanos, não sabemos de tudo, como Deus.   Nossos limites de conhecimento são estreitíssimos, em relação ao divino, mas mesmo assim, Ele quer que exercitemos os nossos sentidos, e a nossa consciência de responsabilidades sociais, a solidariedade, e o amor ao próximo.    Um crime praticado não deve ficar impune, e um caso misterioso deve ser investigado a fundo, a fim de que a coletividade não leve a culpa de uma pessoa por omissão ou falta de diligência.   Um desdenhoso “dar de ombros” e o simples ignorar casos assim, pode estar apenas encobrindo algo que a sociedade deveria saber e expor em público.   Os possíveis culpados precisam ser identificados e tratados segundo a Lei, a fim de que o povo não venha a sofrer passivamente outros agravos da mesma espécie em lances futuros.    Por fim, se ninguém for capaz de estabelecer essa imputação de culpa, então, sem sombra de dúvida, o Juiz Divino tomará o caso em Suas mãos, e julgará de acordo com a Sua suprema sabedoria.

Deuteronômio 21:1-9 trata de um desses casos.    Inesperadamente, quando ia alguém caminhando pelos campos, ou pelos bosques, às vezes pelo deserto, em lugares ermos, eis que lhes aparece largado o corpo de alguém que foi morto, nas proximidades do seu caminho.  O espanto, o horror, a surpresa eram as primeira impressões.    E se o tal ainda não havia morrido?   Se o corpo ainda não cheirava mal, o caminhante que por ali passava se aproximava, tocava no morto e tentava reanimá-lo, na esperança de tê-lo encontrado com vida, mas então logo percebia que não restava mais o que fazer, senão chamar pessoas, de preferência os anciãos ou os levitas, os juízes da cidade, e avisá-los do fato, a fim de que fossem tomadas as providências que seriam cabíveis naquele momento.

Era então atribuído o local de competência, o da jurisdição da cidade mais próxima, e o corpo de anciãos desta teriam que executar um ato de fé diante dos olhos invisíveis do Deus santo e justo.

Como o Senhor desejaria que fosse lidado com esse tipo de problema?   Pois acerca disso, Ele falou a Moisés:     uma novilha que não havia ainda posta a trabalhar seria trazida a um vale para ser desnucada pelos anciãos, com a presença testemunhal de sacerdotes.   Os anciãos todos daquela cidade teriam de lavar as mãos sobre a novilha desta maneira morta.   Eles ainda teriam de confessar que não viram o que aconteceu ao morto encontrado, e nem tiveram participação alguma no ocorrido, e orariam ao Senhor, pedindo que a culpa daquele  sangue não lhes fosse imputada.     Isto seria, por fé, como eliminar a culpa de sobre suas cabeças, diante de Deus, e Ele os perdoaria como povo, por aquele infeliz incidente.

Isto se chama solidariedade espiritual.   Não se sabia de fato o que teria acontecido.   Poderia ter sido uma morte acidental que surpreendera  a um agente junto à vítima, o qual se teria evadido, a fim de não deixar sua vida complicar-se.     Poderia também ter sido uma morte natural, ou ainda da autoria de alguma fera.   Poderia, por fim, ser um crime de homicídio, doloso ou culposo, cujo autor fosse completamente desconhecido, o que,  obviamentte, consistiria em algo difícil de ser desvendado.

Fosse qual fosse a hipótese verdadeira, tudo é bem claro e sem segredos debaixo do olhar do Senhor.   Se Ele mesmo permite que algo não seja descoberto naquele momento, sabemos por outro lado que um dia todos os crimes e incidentes ocultos serão revelados.

O que fica muito patentemente significativo nesta passagem, porém, é a lavagem das mãos dos anciãos.   Cerca de 1500 anos após esta lei ser revelada a Moisés, Pôncio Pilatos lavou suas mãos em Jerusalém, com a intenção de deixar claro a todos que ele julgou a Jesus Cristo, e não achou nEle nenhuma culpa, e que a sentença de morte que recaiu sobre o Senhor não foi sua decisão e nem disso teve parte.   Como o povo condenou a Jesus, sob a influente pressão e influência da casta sacerdotal, rejeitando-O em benefício de Barrabás, e clamando: – “Crucifica-O!”- então Pilatos quis, com a lavagem das mãos, lançar de si toda a culpa, direcioná-la ao povo, e livrar-se da responsabilidade daquele ato condenatório, ao que o povo respondeu:

“Que o seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos.” (Mateus 27:25)

Assim o povo judeu assumiu a culpa jurídica pela morte do Senhor Jesus, mas a culpa pelos nossos pecados pesou de forma absoluta sobre Ele, condenado à cruz.   O apóstolo S. Pedro bem o declarou aos judeus, no dia de Pentecostes:

“… vós O matastes, crucificando-O pelas mãos de homens ímpios” (Atos 3:22)

Em meio a esses fatos que complicaram a atribuição da culpa a alguém, pois, ficou por fim determinado que o próprio povo assumiu ser culpado, muito embora não tenha sido o próprio executor da pena.

A novilha sobre a qual os anciãos lavavam suas mãos, afinal, tornara-se em mais uma entre tantas figuras simbólicas de Cristo, que morreu inocente, e sobre cujo sangue foram lavadas as mãos de Pilatos (mais uma evidência das profecias sobre o Messias Sofredor).

O povo, ao ouvir o discurso de Pedro junto ao Cenáculo naquela festa de Pentecostes, então, percebeu que cometera um homicídio criminoso e que o peso daquele pecado o estava constrangendo:

“Ao ouvirem isso, eles ficaram com o coração pesaroso e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos:  – Irmãos, que faremos?”  (Atos 3: 37) – versão AS21

A resposta de Pedro é fundamental:  “Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo, porque a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos os que estão longe, a quantos o Senhor chamar” (Atos 3:38). – versão AS21

Louvado seja Deus, que nos deu o Seu próprio Filho para morrer debaixo da condenação que repousava sobre nós, em nosso lugar, quer Pilatos lave as mãos, quer o povo assuma a responsabilidade por aquele ato, ou não, é Jesus quem nos salva e nos livra dos nossos pecados.  Toda glória a Deus!

Deuteronômio 21:10-14 – Piedade para com as prisioneiras.

Como já temos comentado em nosso último artigo, as mulheres e crianças de alguns inimigos poderiam ser poupadas das consequências sanguinárias das guerras desencadeadas entre Israel e nações distantes de seu território.

Como deveriam as mulheres sobreviventes, capturadas como reféns, ser tratadas?   Estas passariam a servir ao povo que as fez ficar órfãs e viúvas da guerra.   Como os homens dessas nações eram eliminados, estas já não teriam mais suas antigas  famílias, e teriam que dar como perdido todo o sentimento nacionalista.   Teriam que assumir que perderam sua identidade política, pois já não mais pertenceriam à sua antiga nação, e nem teriam um exército de homens para defendê-las.

Era certo e evidente que elas teriam que reformular seus sentimentos religiosos, pois a Lei de Moisés era taxativa:  não seria admitido nenhum tipo de idolatria a quaisquer deuses estranhos.   Somente a Jeová deveria ser toda a adoração.   Os idólatras eram condenados e punidos com a morte.

Olhando-se para trás, elas deixaram um rastro de infortúnio e dores em suas almas.  Olhando-se para o futuro, entretanto, para elas havia uma grande possibilidade, que era a de passarem a servir a Jeová.   Elas passariam a conhecer a Lei do Senhor, e passariam a ser participantes das promessas e bênçãos que desta se seguiriam.

Uma outra possibilidade é que elas poderiam também passar a ser esposas de seus senhores, caso houvesse alguma empatia entre ambas as partes,  e neste caso deixariam de ser servas, passando a fazerem parte da família daqueles que as receberiam por esposas.   Esta era uma forma de Deus as incluir em Sua família, e consolá-las dos traumas e desencontros de suas vidas.

Para marcar e formalizar sua aceitação e entrada para uma nova família, alguns procedimentos teriam que serem feitos:

  • Elas rapariam suas cabeças, pois alguns tipos de cortes de cabelo faziam parte de rituais idólatras (conf. Levítico 19:27), mas seus cortes de cabelo teriam que ser reformulados.
  • Cortariam as unhas, pelo mesmo motivo.
  • Despir-se-iam de todo dos vestidos do seu cativeiro – pois que não seria mais considerada como estrangeira – nem mais vestes da idolatria, e nem andrajos.
  • Ficaria em casa por um mês, para chorar por seus pais, visto que poderia ter ficado órfã de pai, ou viúva, e separada total ou parcialmente de seus familiares.   Esta norma visava à recuperação psicológica da cativa, em respeito a seus sentimentos.

Depois disso, sendo tomada por esposa, ela poderia ter duas atitudes para com seu novel marido:  esquecer-se do passado, aceitá-lo e serem felizes, ou deixar o sentimento do nojo tomar conta de seu coração e não se conformar em ser mulher de um povo inimigo, que matou os homens de sua família e de sua antiga convivência.   Se esta atitude se perpetuasse, então seria quase fatal uma crise matrimonial, seguida de divórcio.   Neste segundo caso, ela deveria ser deixada à sua própria vontade, mas não poderia mais ser vendida como escrava, e nem ser maltratada.   Recebendo sua carta de divórcio, teria em mãos uma prova de que não era uma mulher qualquer, sujeita a todo tipo de assédio, críticas e ao mau julgamento por parte da sociedade.

Deuteronômio 21:15-17 – O direito à primogenitura.

Este é um caso em que as pessoas não deveriam “lavar as mãos”, omitindo o direito a quem de direito.   Filhos primogênitos, dentro da cultura autóctone, teriam direito a uma porção dobrada da herança dos pais, segundo o costume aderido por várias nações estabelecidas nas adjacências daquela região do Oriente Médio.

Nesta seção, o profeta transmite o recado divino aos seus companheiros, mostrando-lhes que não devem fazer acepção de pessoas, mas cumprir estritamente a Lei.   Perguntaria alguém:  mas isso seria justo?    Por que os demais filhos teriam de assimilar tal costume, em detrimento de sua parte da herança, em favor do irmão mais velho?

Antes de mais nada, um costume firmemente enraizado em uma cultura chega a ser um “more” sociológico, do qual não se abriria mão – a passagem da primogenitura de Esaú para Jacó provocara um terrível sentimento de rivalidade, com nuances de sede de sangue, como se tal coisa fosse uma desonra.   Jacó, mais tarde, reconhecendo a procedência da ira de seu irmão, presenteou-o com muitos caros presentes, a fim de honrar àquele que se sentia lesado e com o orgulho ferido.

Depois, é de bom alvitre lembrar que Jesus é o Primogênito de toda a Criação,  o Filho Unigênito do Pai, que merece toda a honra e toda a glória como tal.   A esta condição, o Senhor procura sempre lembrar-nos, a fim de que nós também, como filhos adotivos, também Lhe rendamos o louvor que Lhe é muito bem merecido.

Como um homem, na época, poderia ter mais de uma esposa (o que em si já era um ensejo para levantar ciúmes e contendas entre as mulheres e os filhos), certamente que havia preferências, nos corações destes.   Inevitável seria amarem mais a uns que a outros, mas a diretriz de Deus é para não manifestarem tais preferências com tantas diferenças de tratamento – mas a Lei previa um limite para o filho mais velho:  uma porção dobrada, e não mais do que isto.

Claro é que há filhos… e filhos.   Filhos que obedecem e mostram amor para com seus pais serão, em retorno, mais amados do que os que não valorizam tanto aos seus progenitores.   Filhos que honram devidamente aos seus pais em tudo, não serão jamais esquecidos em quaisquer momentos.

A Lei, entretanto, diz para não haver ignorância da mesma no que tange ao recebimento dos quinhões de herança.   Os primogênitos, protegidos pela Lei, deviam ser tratados como primogênitos, e receberem sua porção dobrada, nessas ocasiões.

Alguns filhos seriam um pouco difíceis de serem educados, mas isso não deveria desmerecer sua condição de filhos, pois até certo ponto os jovens e adolescentes podem sentir-se um pouco despreparados para a vida, e também incompreendidos – o que logo deve esclarecer-se e desfazer-se quando encontram um fio do prumo que lhes dê uma direção segura.

Deuteronômio 21:18-21:  Quando filhos se tornam uma ameaça

Alguns tipos de filhos porém representam uma dor para os pais e para a sociedade, devido a uma rebeldia sem limites.

Estes não se contêm na prática de uma vida dissoluta.   Beberrões, irresponsáveis, dados à violência, eles se equiparariam aos que hoje conhecemos por viciados em drogas.   Além de desobedecerem e aborrecerem a seus pais,  são uma ameaça e um perigo dentro e fora de suas casas.

Ouvimos falar de muitos casos atuais em que pais tiveram que ordenar a retirada de seus filhos de seu convívio familiar, o que, uma vez não obedecida, haveria uma grande chance viverem dias de verdadeiro terror, e uma preocupação constante.    Em alguns casos, tais filhos rebeldes terminam suas vidas nas prisões, por se terem tornado em parricidas, matricidas, ou fraticidas.

Antes, porém, que esses jovens se tornassem em assassinos até mesmo de seu próprios pais, além de poderem de atingir a outros na sociedade, o Senhor apontou para a solução na Lei – os próprios pais o entregariam aos anciãos da cidade, que ordenariam o apedrejamento do tal filho rebelde.   Tal Lei era realmente muito radical, mas teve seu mérito dentro de sua época, e em certos casos, ainda é uma solução antes que se suceda um genocídio.

Jesus, porém, trazendo-nos a excelência de seus ensinos, deixou-nos a parábola do filho pródigo, que revela que há a possibilidade do arrependimento da parte do pródigo, o que atrai a misericórdia de seu pai, figura do Pai Celeste.   O pai misericordioso correu ao seu encontro para abraçá-lo, antes de qualquer outra reação da parte de quem quer que fosse, o que evitou e excluiu a possibilidade de que anciãos da cidade ou quaisquer outras pessoas presentes pudessem apedrejá-lo.   O abraço do Pai desarma os apedrejadores.

Beijos e um coração aberto para um recomeço de vida, então nos mostram como é o coração de Deus em relação a Seus filhos.   Ele é inigualável, sem sombra de dúvida!


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