JOSUÉ – III – A FÉ QUE SALVOU UMA MERETRIZ

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marzo 3, 2015 by Bortolato

Raabe

Uma das coisas mais lindas que contemplamos no coração de Deus é a Sua tão boa vontade para aceitar, salvar e abençoar a quem quer que seja, seja qual for a sua condição moral ou espiritual, social, psicológica, estado civil, raça, cor, nação de origem, cultura, idade, sexo, ou de condição econômica pobre ou rica.   É muito lindo o meu Deus!   É lindo demais para caber no entendimento de muitos!  É de uma preciosidade enorme, o amor de Deus!   É bênção maravilhosa, e a maior de todas, que se destaca mais do que o Seu afiadíssimo senso de  justiça, como uma estrela de primeira grandeza brilhando ostensivamente, contrastando com a escuridão do firmamento.

Em Josué, capítulo 2º, lemos acerca da história verídica de uma mulher que, vivendo em meio a múltiplas maldições e podridões do pecado, uma mulher de vida fácil, cujo status moral muitos teriam desacatado, que inesperadamente age de uma forma tal que revelou, além de uma intuição,  uma percepção, e uma inteligência acima dos padrões de seu povo, mostrou também ter uma grande fé, com o pouco conhecimento que pôde obter acerca do Deus de Israel – que por sinal, naquela ocasião ainda não era o seu Deus.

Ela vivia em uma cidade moral e espiritualmente condenada por Yaweh, o Criador do universo e do homem.    Os atos hediondos ali praticados já haviam chegado acima do limite da paciência de Deus.   Mortes criminosas, opressões, angústias e terror espalhavam-se aqui e ali, por todos os lados.

O estado de decadência moral daquela mulher, que lhe devia trazer muitos transtornos à alma, parecia estar acumulando um peso menor do que o do restante de seu povo de origem, aos olhos de Deus.   Ela era uma prostituta, e sua profissão era aquela que, inicialmente promete muita riqueza e prazeres, mas que, ao final, traz muita vergonha, desprezo, decepções, desamparo e um terrível estado de prostração, além de lhe preparar no futuro, com todas as probabilidades, uma possível morte causada por doenças venéreas.

Dizer que sua posição social seria de baixa estima na escala de valores de seu pequeno mundo seria até arriscado, devido ao fato de que a moral de homens cruéis, assassinos frios, ladrões, corruptos incuráveis era o que perfazia o clima que a rodeava dia após dia.   Não havia segurança para ela, naquele lugar.

A religião de Jericó era, sem dúvida, idólatra por excelência, a qual não titubeava em escolher pessoas de sua própria comunidade para serem sacrificadas vivas em um altar, em oferta de sangue para seus deuses.   A preferência nesses casos era por crianças inocentes, mas até mesmo mendigos e prostitutas podiam constar da lista das vítimas desse circo de horrores.

Raabe vivia, pois, aos sobressaltos.   Sua mente vivia às voltas com a pergunta: – “Quem será da próxima vez?   Eu, ou meus irmãos?”   Sua vida era de fato um tanto difícil, em termos de expectativas.  Quem neste mundo, lhe poderia oferecer dias melhores?   Seus suspiros não eram sem causa.   E agora, então, chega a última notícia, que indiretamente a incluía no rol dos cidadãos de Jericó marcados para morrer, pois a cidade estava prestes a ser invadida e destruída.   Procurando saber melhor sobre esse assunto, viu que a nova ainda embutia uma luz que ela gostaria muito de ter junto a si e aos seus.

Era uma estranha notícia, que lhe chegou aos ouvidos em um dia em que percebeu que sua cidade toda estava de espírito abalado, como se os alicerces dos muros de defesa estivessem moralmente cedendo, e as paredes se rachando.    Na verdade, se este era o espírito dos cidadãos de Jericó, isto era também um eco da situação dos muros materiais, que, segundo as escavações das ruínas de campo do Dr. John Garstang, diretor da Escola Britânica de Arqueologia, efetuadas de 1929 a 1936, não eram muito firmes e seguros.    Ele constatou que o muro era duplo, havia dois muros separados um do outro em cerca de 5 metros.    Eram muito grossos – o muro externo tinha 2 metros de espessura e o interno 4 metros.   Sua altura era de uns 10 metros.    Tinham uma aparência externa de extrema ostentação de segurança, mas seus alicerces  eram defeituosos e desnivelados.   Eram feitos de tijolos de 10 centímetros de espessura por 30 a 60 cm de comprimento, assentados em argamassa de lama.    Os dois muros se ligavam entre si na sua parte mais alta, por meio de casas  construídas por cima de seu topo.     Assim estava assentada a casa de Raabe.   E ela pôde sentir que os defeitos internos dos muros materiais estavam dissimulados,  e os alicerces da falsa paz do povo estavam estremecidos.

Naquele dia ouviu falar que um povo estranho saiu do Egito, e, sendo perseguido por Faraó, o mar Vermelho se lhes abriu, oferecendo-lhes passagem a pé enxuto para atravessarem pelo leito até a margem do outro lado, para depois afogar ao exército egípcio pela mão poderosa do Deus Yaweh!

– “Oh, existe um Deus Yaweh, que então menospreza e humilha aos deuses e aos poderosos?   Quão poderoso deve ser esse Deus!   Os deuses do rio Nilo viram Yaweh tornar suas águas em sangue…   Os deuses com feições de touros viram seus semelhantes serem coletivamente apedrejados e mortos pelas saraivas…   O deus Ra, o sol, foi ultrajado por dias de trevas… O próprio filho do Faraó, que é considerado um deus, também foi morto, e não houve um deus, pequeno ou grande, que pudesse trazê-lo de volta do Hades…   E como Ele consegue abrir a profundidade do mar dos Juncos no momento em que Ele quer ? ”

E mais a respeito dele ela teria ponderado: – “Aquele povo percorreu a Transjordânia, a terra de Gileade, do sul para o norte, foi guerreando, e vencendo aos amorreus, a Seom, rei de Hesbom, e até mesmo aos da raça de gigantes, inclusive a Ogue, rei de Basã?   Que coisa incrível!”

Assim deve ter Raabe levado seus pensamentos, meditando sobre os fatos.   Aqueles acontecimentos a deixaram admirada.   Como era apenas uma simples mulher, frágil diante das forças que a cercavam, continuava a pensar:  – “Isso quer dizer que nem sempre a batalha é dos homens fortes…  principalmente em se falando de alguém ter que guerrear contra o Deus Yaweh, o Deus que guerreia por Israel…   Esse Deus é muito forte, e tem demonstrado que é invencível…  Em uma disputa, Ele põe no seu bolso a qualquer outro deus, em defesa de Seu povo!  E pensar que em Jericó, os deuses daqui exigem o sangue da nossa gente…”

Ao saber, pois, que os israelitas estavam ameaçando entrar em Canaã, começou a ouvir os boatos, e as más notícias lhe chegavam aos seus ouvidos.   Ela soube de tudo isso, porque tinha meios de se informar, sim, mesmo sem sair de casa.   Soube que os oficiais, o exército e até o rei de Jericó estavam todos temendo e esmorecendo em seu ânimo, à espera de serem os próximos a serem atacados – e não era medo dos homens de Israel, mas medo do Deus de Israel.   Não sabiam o que fazer.   Estavam completamente desanimados, sem saber o que fazer.   Pensavam o tempo todo nessa questão, não dormiam direito, estavam pressentindo um clima de derrota fatal que lhes estava aproximando cada vez mais, a cada dia.   Buscavam aos seus deuses, mas não obtinham nem uma pequena palavra de esperança, em resposta.  Parecia-lhes que o seu destino já estava traçado, e por isso não mais conseguiam dominar os seus nervos.   O pavor já estava fazendo seus corações sucumbirem ante o inédito desafio que lhes surgiu de súbito diante de suas barbas.   O desastre estava certo e prestes a acontecer, a qualquer momento.

Repentinamente, dois homens hebreus atravessam o rio Jordão, caminham e  entram na cidade, querendo despistar, não chamando a atenção sobre si, e para onde resolvem ir?   Para a casa de Raabe, a prostituta.   Queriam que todos pensassem que eram dois viajores querendo viver uma pequena “aventura”, realizar suas fantasias sexuais, mas não foi possível enganar aos cidadãos daquela cidade-fortaleza.   Seu jeito de falar, suas vestes, sua maneira estranha que deixaram transparecer, ao entrar na cidade, andando de lá para cá, observando o movimento das pessoas, das sentinelas, dos soldados, verificando cada portão, cada grupo de casas, o palácio real, sendo apenas dois ilustres desconhecidos que pareciam ter surgido do nada, e que nada diziam a respeito de si mesmos…  só isso já dizia muitas coisas.

Aquilo não passou despercebido.   Logo foi alguém procurar falar com o rei de Jericó, para avisá-lo de que dois forasteiros, os quais foram vistos adentrando por um dos  portões do lado leste, da banda  do rio Jordão, entraram na cidade, e estavam mostrando um comportamento muito suspeito.    Como o acampamento dos hebreus estava localizado além do Jordão, em uma latitude e longitude relativamente próximas, logo chegaram à conclusão: – “São hebreus!  E já chegaram até nós!”

Não foi difícil para eles calcularem que os dois vieram ali para espionar.   O rei de Jericó logo enviou homens da guarda para os prenderem.   Os dois não poderiam escapar.  Deveriam ser presos, torturados até aos seus limites humanos, e inquiridos com violência, para arrancarem toda e qualquer informação que lhes pudesse porventura vir a ser útil – e depois, matá-los.   Perguntaram aqui e ali, para saberem de seu paradeiro, até que obtiveram uma pista auspiciosa:   eles tinham entrado em casa de Raabe.

Na casa de Raabe, então, Deus faz cumprir Seus planos para com aquela pobre mulher e sua família.   Ela tem a chance que mais desejava ter na vida:  a chance de poder sair das garras de uma vida decaída, sem sentido, para poder ser participante de um povo que guarda a fé no grande Deus que abriu o mar Vermelho – ela já estava ansiando por isso, e o Senhor honrou a sua fé.   Aquele foi o dia da maior oportunidade que tivera em toda a sua existência… Aquela inesperada visita acendeu-lhe a chama da esperança – da esperança de ser salva e achar o caminho para uma vida melhor.

Aquele que tem o poder para abrir o mar, terá afinal, também, poder para salvá-la e transformá-la, mudando completamente o rumo do seu futuro.

Deus atentou para os seus suspiros, para seu forte anseio, e lhe enviou dois espias, dois representantes de Seu Reino na Terra, para lhe oferecer uma dramática libertação e ainda facultar-lhe a integrar, para fazer parte do povo que Ele, Yaweh, abençoa.

Para tanto, era preciso ter fé, e isso ela possuía.    Ela agarrou aquela chance de ouro com ambas as mãos e com todas as suas forças.   Almejando um futuro melhor, escondeu os espias debaixo das hastes de linho que estavam dispostos sobre o telhado da casa.   Era noite, e ninguém mais ali, senão ela, os seus, e os dois espias sabiam disso.

Inquirida sobre aqueles homens israelitas, fez-se de ingênua, e que não sabia para onde eles teriam saído, após passarem um tempo em sua casa.  Passado aquele momento de perigo, ela voltou-se para os espias e declarou sua fé, dizendo crer que o Senhor Yaweh tinha dado aquela terra toda aos hebreus, e revelando-lhes toda a instabilidade psicológica e desesperança do povo de Jericó, o que apenas era prova de que não havia outra sorte prestes a acontecer.   Canaã seria toda de Israel, o qual a conquistaria avidamente, por onde quer que aquela nação fosse.

Houve então um pacto.   Um acordo.  A casa onde ela morava deveria manter um cordão escarlate, amarrado à sua janela, exposto à mostra para o lado de fora – e todos os que estivessem dentro daquela casa seriam poupados durante a invasão.

Os espias seguiram as instruções de Raabe para se colocarem a salvo ao deixarem Jericó, voltaram em paz para o acampamento na Transjordânia, e relataram todas essas coisas a Josué, que sentiu mais firmeza ainda, em realizar aquela tão esperada manobra de conquista.   Seus planos foram confirmados, e eram os planos de Deus.

Interessante notar:  o Senhor não permitiu a ninguém, a nenhum dos soldados israelitas que poupassem coisa alguma da cidade de Jericó.   Tudo devia ser posto a fogo.   Um judeu chamado Acã, porém, tomou um pouco de prata, de ouro e uma bela capa babilônica que encontrou, levou-os para si, e por isso teve que sofrer pena capital, juntamente com toda a sua casa.

Raabe, no entanto, seu pai, e seus irmãos foram poupados, como uma grande exceção. Por quê?   Porque ela se apegou ao Deus de Israel, e abriu mão de todos os deuses e imagens que havia em Jericó.   Neste quesito, não houve distinção de raça ou nacionalidade, mesmo dentro dos moldes da Antiga Aliança, antecipando o espírito neotestamentário em mais de 1.400 anos.   Ela tornou-se tão preciosa quanto qualquer judeu, ou qualquer pessoa que pertença ao povo de Deus.

Deus não fez sequer menção da ignóbil profissão que ela exercia dantes.   Aceitou-a e aos seus, como sua fiel adepta e seguidora.    A sua fé era sincera, genuína, profunda, espontânea e o Senhor procura corações que abriguem tais coisas acima de quaisquer sentimentos.   Ela não se apegou a uma mera religião ou a um nacionalismo cego e fracassado, como seus até então concidadãos.   Não olhou para os servos de Deus com antipatia e inimizade, mas muito pelo contrário.   Ela os viu como a anjos do Altíssimo que estavam passando por sua casa, trazendo-lhes a vida e a bênção em suas mãos.    Como deixaria escapar tão grande oportunidade, e tão grande salvação?

O Senhor acolheu-a com carinho e amor, dando-lhe um lugar entre os de Seu povo.   Ela teve, obviamente, que mudar de atividade, mudar completamente seus costumes.   Teria que aprender a Lei do Senhor, e obedecê-la.   Foi o que mais queria saber e fazer!   Não só para ficar livre da opressão decorrente da violência de uma vida idólatra e do sistema social de Jericó, mas porque ela encontrou Yaweh, seu sonho de libertação e de ser alvo de um amor maior do que ela até então conhecia.

Ela, a ex-prostituta, chega a ser um referencial para muitos, um exemplo de mulher de fé, incluída na galeria dos heróis de Deus que o autor do livro de Hebreus listou no seu capítulo onze.

O leitor pode convir então:  se a sua fé é pequena, e nem ousa compará-la com a de Abraão, ou algum outro herói bíblico, acha que não há meios de chegar a tanto, olhe para Raabe!   Seu nome figura ao lado dos Patriarcas, de José, de Moisés, Daniel, Sadraque, Mesaque,  Abdenego, Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, David, Samuel e os profetas.   Não era versada nas Escrituras, não foi testemunha dos milagres de Deus no Egito, no mar Vermelho e nem no deserto,  mas simplesmente creu no Deus que fez aquelas coisas como lhe contaram.

Para surpresa de muitos, ela, mesmo sendo gentílica, participou da honra de ser ascendente da linhagem que recebeu o Messias, o Senhor Jesus Cristo, neste mundo – o Senhor dos senhores e o Rei dos Reis (Mateus 1:5).   Isso prova que ela veio a casar-se e ter filhos que fizeram parte da linhagem real de Davi, e de Jesus.  Esta é uma grande prova de que Deus não faz acepção de pessoas.   Ele vê, antes de tudo, a fé nos corações.

Nas palavras do Apóstolo Paulo em Atos 16:31:

“Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo, tu e tua casa.”


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