JUÍZES – VII – HUMILDADE E FÉ, VITÓRIAS E ORGULHO

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Julio 25, 2015 by Bortolato

Estes predicados podem definir uma personalidade em diferentes momentos de sua vida.   Uma pessoa pode, em dado momento, mostrar somente virtudes, e noutro, os seus defeitos, as falhas de seu temperamento.   Não há homem perfeito que se conheça, como afirmam alguns, e isto é confirmado pelas palavras da Bíblia (Salmos 14 e 53), mas há Alguém que nos pode suprir virtudes, quando estas nos faltam.

Tomamos como exemplo o nome de um homem que ficou famoso por causa de sua fé e de um humilde começo: Gideão, filho de Joás, o abiezrita.   Era um agricultor que recebeu um chamado de Deus para livrar sua nação de uma terrível opressão que se lhes opunha sazonalmente, mas sem misericórdia, da parte dos midianitas (descendentes de Quetura) que se juntaram com os amalequitas (povo descendente de Elifaz, filho de Esaú) e outros povos do oriente, para roubarem, matarem e destruírem-nos.    Eram ferozes e vorazes.   Sua devastação era comparada com a de uma nuvem de gafanhotos, nada deixando para trás de si, senão aquele rastro de destruição.

Quando então Gideão ouviu a voz de Deus, usou de suas forças, ou melhor, de uma grande força que lhe capacitou a usar de sabedoria e astúcia, juntamente com 300 homens, com o propósito de desbaratarem incrivelmente um exército poderoso de 135.000 homens, inicialmente no vale de Jezreel, conforme temos já comentado sobre o capítulo 7º do livro de Juízes.

Logo após colocar o arraial midianita em polvorosa, ele recebeu apoio e ajuda dos homens das tribos de Naftali, Aser, Manassés e Efraim, os quais bloquearam as rotas de passagem pelo Jordão, que tinham sido usadas pelos inimigos vencidos, os quais procuraram fugir a salvo da indescritível batalha ocorrida no vale de Jezreel.   Ali puderam apanhar e eliminar a muitos daquelas três tribos.   Até chegaram a capturar a dois príncipes dos midianitas: Orebe e Zeebe.

Os da tribo de Efraim, no entanto, censuraram-no por não haverem participado daquela primeira façanha, um portento que redundou em estrondoso vitória.

Gideão, usando da humildade de homem do campo, aplacou a ira e o descontentamento de sua tribo irmã, a qual certamente teria gostado muito de poder levar as glórias e bem mais despojos de guerra para casa (Juízes 8:2-3).

A palavra dura suscita a ira, mas a branda desvia o furor, e assim aconteceu.   Os efraimitas contentaram-se com o que ouviram, e as coisas se acalmaram.   Uma tribo influente e orgulhosa como a de Efraim, da qual procedera o profeta Josué e onde lá colocaram o Tabernáculo da Congregação, parecia não aceitar ficar de fora dos lauréis e recompensas de uma grande vitória.   Gideão dispensara quase 32.000 homens em sua seleção, para ficar com apenas trezentos, mas isso seria o cúmulo do absurdo para os de Efraim, que jamais aceitariam tal dispensa, e portanto, tudo correu melhor assim como foi, pois acima de tudo, aquilo que se esteve fazendo foi apenas para seguirem uma direção dada por Deus.

Juízes 8:4-10 nos mostra um quadro em que nem sempre a fé é bem aceita, e não é dom que contemple indistintamente a todos.   Aliás, muitas vezes é mal compreendida.

Em que estava pensando Gideão, depois que um contingente de 120 mil midianitas foi aniquilado?   Em contentar-se com o feito, e comodamente ira para casa, enriquecido com os despojos obtidos?   Já havia conquistado glórias suficientes para o resto de seus dias. Muitos já se teriam dado por amplamente satisfeitos. Mas não.   Ele percebeu que mais de dez por cento daqueles inimigos, isto é, cerca de 15.000 guerreiros conseguiram fugir em seus camelos, e atravessaram o rio Jordão, rumando para o leste, até chegarem a Carcor, e ali se assentaram, sentindo-se em casa aliviados, como se o perigo já tivesse passado, pois tinham conseguido deixar o território israelita para trás.   Parecia-lhes que o terror daquela derrota já se tinha acabado, e agora era momento de apenas colocarem as cabeças no lugar, assimilarem o fracasso, e pensar em como iriam fazer dali para diante…

Gideão, pois, sentiu que, embora aqueles fugitivos representassem apenas uma pequena parte de escapos daquela imensa massa de inimigos, estes ainda contavam um bom número, que ainda tinha a possibilidade de causar grandes estragos e trazer sérios problemas futuros para o seu povo, que já tinha vivido amargamente oprimido por aqueles nômades do deserto.   Eles certamente não iriam desistir de viverem como assaltantes, pois “o lobo perde o pelo, mas não perde o vício”, e uma vingança sobre seus oponentes vencedores seria um bom assunto para começarem a debater entre si.

Com vistas a prevenir uma revanche, uma virada e um rebote da parte daqueles povos saqueadores, então Gideão, ainda seguido de apenas 300 companheiros, seguiu as suas pegadas, e chegou cansado a Sucote, cidade que ficava um pouco ao norte do vau de Jaboque, onde solicitou ajuda na forma de pães, mas vendo ter sido ali muito mal recepcionado, foi pedir aqueles suprimentos aos da cidade próxima, em Penuel (aquele lugar junto ao ribeiro de Jaboque, onde Jacó lutou com um anjo durante uma noite).   Em vão.   Foi recebido da mesma maneira, com um outro “balde de água fria” .

Aquelas duas cidades da tribo de Gade pensaram apenas em si mesmas.   Talvez temessem que os reis midianitas, se soubessem que teriam ajudado a Gideão, voltassem-se contra os tais.

A atitude de Sucote e de Penuel foi mesquinha, egoísta, e de muita falta de consideração. Gideão e seus 300 estavam cansados, estavam sem pão para se reabastecerem, mas ainda assim estavam dispostos a arriscar suas vidas para irem ao encalço dos reis midianitas Zalba e Zalmuna.   Aquelas duas cidades não tiveram, em suas ponderações, um mínimo sentimento de patriotismo, e nem de compaixão pelos que assumiram uma postura de fé, para irem bravamente em busca de mais um milagre, na dependência da ajuda das mãos do Senhor Yaweh.   Acima de tudo, ainda desafiaram a mão poderosa que já os havia ajudado, dando-lhes vitória até então.   Menosprezaram a um profeta e juiz, a seus 300 homens, e, mais do que isto, também a Deus.   Ofenderam-nos. Rejeitaram sua iniciativa, e ousaram humilhá-los. Não somente recusaram-se a ajudar a Gideão, mas também a si mesmos, e assim estavam ajudando aos seus inimigos.   Uma atitude tão descabida e desrespeitosa exigia uma disciplina, e depois do retorno, Gideão prometera dar-lhes uma dura lição.   E foi o que fez, em uma atitude excessivamente drástica aos nossos olhos, pois que hoje Deus nos outorgou uma Nova Aliança, mas sob a ótica da Antiga, ver-se-ia aquilo como algo normal, mormente sabendo-se que nos dias dos Juízes, Israel andou muito tempo sem rei, e as pessoas faziam muitas coisas conforme o que julgavam ser boas para si, sem consenso, sem conselhos, aquilo que achavam ou simplesmente imaginavam ser o justo.

Juízes 8:10-21 nos diz que Gideão, com os seus 300, seguiram, então, mesmo cansados e com falta de alimentos, em jejum, durante a caminhada.   Ao alcançarem os midianitas em Carcor, tomou-os novamente de surpresa, e foi vitorioso.   A bravura de sua pequena companhia de 300 homens, desta vez, não ficou apenas na expectativa, só observando, mas partiu para a luta, e novamente poucos foram os que conseguiram escapar – dentre estes, Zeba e Zalmuna, os seus reis, que o tentaram, mas desta vez foram perseguidos e capturados.

Depois disso, aqueles dois reis foram levados até Sucote e Penuel para mostrar àquele povo que apesar de estar com poucos ao seu lado, Gideão estava certo da vitória, pois ia em nome de Yaweh, o Todo Poderoso. A prova disso estava ali, com a presença daqueles dois prisioneiros que antes aquelas cidades tanto temeram, em detrimento de Gideão. A falta de fé que levou aquelas duas cidades rebeldes a desdenhá-lo foi envergonhada e severamente punida na pessoa de seus líderes.

Em seguida, os dois reis midianitas, foram mortos depois de, inquiridos, confessarem haverem, em suas campanhas de assalto a Israel, matado aos irmãos da família de Gideão no monte Tabor.   Gideão quis que seu filho maior, Jeter, os tivesse executado, pois a Lei do Talião lhes permitia vingar a morte de seus parentes.   Jeter, porém, por ser ainda muito jovem, intimidou-se diante da presença dos dois reis, e então o próprio Gideão cumpriu o seu papel de vingador de seus irmãos.

Juízes 8:22-33, após esta façanha tão notável, nos leva a um quadro um tanto decepcionante, na história de Israel.

Depois de ocorridos estes fatos, os homens de Israel quiseram fazer de Gideão o seu rei, mas este não o aceitou, deixando as honras e glórias de tal posição para o Senhor Yaweh, que operou tão maravilhosa e zelosamente por eles, dando-lhes vitórias impossíveis de acontecer, sob o ponto de vista meramente humano.

Gideão teve humildade o bastante para negar-se a receber a coroa real sobre sua cabeça, mas no final deixou transparecer que as vitórias alcançadas, somadas com o prestígio obtido no meio do povo através delas, a proposta de aclamação, e o carinho recebido dos seus (que dantes era o menosprezo), reconhecendo-o como seu Juiz, estas coisas lhe subiram à cabeça.

De um pobre elemento do seu clã, ele passou a ser um homem riquíssimo, ao apossar-se dos despojos dos exércitos vencidos; e a proposta de reinar sobre Israel lhe chegou aos ouvidos como uma lisonja.   A vaidade se lhe assenhoreou, e ele pediu ao povo que lhe desse ainda, além dos bens que já havia conquistado, uma oferta em ouro.

Os midianitas, amalequitas e povos do oriente usavam muitos brincos de ouro, os quais ostentavam pendurados em suas orelhas e narizes.   Com aquela imensidão dessas joias arrecadadas dos corpos dos vencidos, não foi nada difícil reunir-se uma boa porção.   Tantos foram os tais brincos ofertados, que chegaram a pesar cerca de vinte quilos.

Com aquele peso todo em ouro, e mais ainda os enfeites, roupas em púrpura dos reis midianitas, e os colares que estes usavam nos pescoços dos seus camelos, Gideão confeccionou um manto sacerdotal, e o dispôs em Ofra, na sua cidade.   Aos olhos de todos, aquilo brilhava muito à luz do sol, um verdadeiro monumento e muito vistoso.

Aquele manto era um objeto que, embora quisesse representar um prodígio de Yaweh, uma vez fora dos ornamentos do sacerdócio levítico – os únicos prescritos e aprovados pelo Senhor, para uso exclusivo da descendência de Aarão – acabou por tornar-se em objeto de adoração, uma pedra de tropeço que levou Israel à idolatria dentro de pouco tempo.

Eis aí como um simples objeto, presumidamente um memorial marcante de um ato glorioso do Senhor, pode passar de algo bom e louvável para ser um ídolo, uma abominação aos olhos de Deus.   Infelizmente, até grandes teólogos, tais como Jerônimo, também acabaram venerando objetos dantes pertencentes a santos do passado, e isto levou a igreja de Cristo a colecioná-los com muita devoção, não suspeitando até onde se poderia induzir o povo de Deus ao erro.

Gideão ainda não parou por aí.   Teve muitas mulheres, coisa que o Senhor já havia proibido aos líderes do Seu povo (Deuteronômio 17:14-17), e mais uma concubina, a qual lhe deu um filho que recebeu o nome de Abimeleque – nome que significa “meu pai é rei”.   Ele, que outrora havia rejeitado o título real para si, estava vivendo vaidosamente, como se fora de fato um rei.

A lição que depreendemos daí é que muitos começam a carreira espiritual com humildade, com grandes bênçãos de Deus, mas acabam, com o passar do tempo, relaxando nos cuidados necessários para uma vida plenamente agradável ao Senhor, e caindo nas concupiscências da carne, desvirtuados, e às vezes até mesmo desviados.

Vale frisar que, aos olhos do Senhor, mais importa como terminamos nossas vidas, isto é, como a levamos até o final, pois isto tem maior valor do que como a começamos.   Vale mais sermos ex pecadores do que sermos ex piedosos, pois se confessamos arrependidos aquilo que fizéramos, é porque já não somos mais aquilo que um dia fomos.

Que nos apeguemos a Cristo, o nosso grande líder e Salvador, para sermos mudados, transformados para melhor, e de uma vez para sempre.   Assim certamente contribuiremos para a transformação deste mundo, e seremos altamente recompensados na presença eterna de Deus.

“No mais, meus amados, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que nEle não é vão o vosso trabalho”.

                                                                       (Apóstolo Paulo, em I Coríntios 15:58)


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