JUÍZES – XVI – GUERRA E PAZ

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Septiembre 10, 2015 by Bortolato

Este mundo seria muito melhor se não houvesse guerras.   Mas como estas poderiam ser evitadas, se o espírito belicoso vive dentro dos corações das pessoas?   E as rebeliões e os motins, e os complôs que já fizeram tantas vítimas neste mundo?

Realmente, há um princípio aguerrido implantado dentro dos homens, de tal forma que, se não for detido ou controlado a tempo, tudo pode tornar-se em um palco de batalhas.

Existem os mais diversos tipos de opinião sobre tudo.   Ideias e teorias a respeito do que deve ser respeitado e o que não merece respeito.   No final, todos querem ter o respeito da sociedade e do mundo, mas nem todos acham que vale a pena fazer sacrifícios por outras pessoas, em troca da paz.

Se formos analisar qual teria sido o estopim das grandes guerras, não somente as do século XX, veremos que estas tiveram lamentáveis motivos de disputa, concorrências e rusgas que sempre acabaram beneficiando alguns e prejudicando tremendamente a outros.

A Primeira Grande Guerra mundial teve início quando uma intriga entre dois países se espalhou rapidamente pelas potências da Europa, pois laços de sangue, coisa comum entre os nobres da época, propuseram-se firmemente a impor-se contra outros países.   Havia alianças eivadas de rixas de um e de outro lado, clamando por revanchismo, e este foi inchado por um militarismo exacerbado, fazendo crescer tensões, e o estopim foi um caso pontual do assassinato de um nobre herdeiro do trono Austro-Húngaro. O resultado foi desastroso.   Mais de dez milhões de soldados foram mortos, e estima-se a cifra de 21 milhões de pessoas que perderam suas vidas.

A Segunda Grande Guerra teve início cerca de vinte anos depois, quando três países (as nações do Eixo) se uniram a fim de expandir seus domínios pela força, trazendo vários países que se envolveram já na Primeira Grande Guerra para o confronto, como se a questão da Primeira não estivesse bem resolvida.  O número de mortos foi incontável.   Estimativas apontam para setenta milhões de vidas que se perderam.

Guerras civis, de outro lado, embora se restrinjam aos limites de fronteiras nacionais, estas também não deixam de ter em jogo os mesmos interesses regionais, por sinal muito mesquinhos.   Há uma destas narrada nos capítulos 19 a 21 do livro sagrado dos Juízes.

O caso da guerra entre a tribo de Benjamin contra todo o resto da nação israelita teve seu início pouco tempo depois de 1.380 A.C. através de um caso criminoso que, em vez de ser julgado segundo a reta justiça, foi o pomo da discórdia. Os benjamitas decidiram que iriam defender seus irmãos criminosos até a morte – e com isto, pagaram um alto preço, quase que chegando à extinção da sua tribo.   Eles julgaram-se poderosos os suficiente para enfrentar a todo o restante de Israel, e, no final, restaram apenas seiscentos homens descendentes de Benjamin, que por pouco não foram exterminados por completo.   Suas cidades todas foram destruídas quase que totalmente, e os restantes que sobreviveram estavam encurralados em um lugar deserto denominado “a Rocha de Rimon”, onde puderam esconder-se a salvo da violência da batalha que os fez chegar àquele estado lamentável.

Por quatro meses ali permaneceram eles com medo de serem apanhados e mais uma vez perseguidos até a morte; não tinham mais como erguer suas cabeças.   Estavam vencidos, envergonhados, humilhados e viviam como podiam, caçando cobras, lagartos e o que pudessem para sobreviver.   Não tinham mais suas camas confortáveis onde dormir, e andavam muito pelas noites, a fim de achar e buscarem água para beberem.   Sua própria nação tornou-se sua inimiga número um, diante da louca impiedade que tentaram defender perante as demais tribos de Israel.

Parecia que o destino daqueles sobreviventes de guerra era ter que viverem nos níveis de homens das cavernas, com uma desvantagem: não havia sequer uma só mulher para que nenhum daqueles seiscentos pudessem tornar a constituir uma família.

Uma barreira social se levantou. Houve uma ruptura e uma divisão entre Benjamin e Israel. A cisma foi tamanha que toda a nação se negara sob juramento de que jamais consentiriam em dar suas filhas para serem esposas ou mesmo concubinas àqueles remanescentes da tribo que se rebelara.   A ousadia, o orgulho e a presunção daquela tribo foi tanta que não inspiravam outro sentimento senão de nojo por aquilo que fizeram.   Nojo e rejeição, era o que inspiravam.

Qual seria o seu futuro dali para diante?   Abatidos, sujos, discriminados, e sem mais o apoio das tribos irmãs, viveriam como malditos.   Se, por muita sorte ainda conseguissem voltar a ter suas famílias, como seriam eles considerados? Talvez como se fossem uma daquelas nações que o Senhor decidiu expulsar de Canaã…   malditos, talvez como o foi Caim, nômade sobre a terra…

Pensaram então, os benjamitas, talvez, em migrar, e irem embora daquele reduto que lhes marcara como o fim vergonhoso de sua jactância, mas a questão era: ir para onde?   Achariam eles uma outra cidade como Laís, aquela que tomada pelos danitas?   Era um caso complicado, de difícil solução…

Uma forte muralha se ergueu entre aqueles seiscentos e o restante de sua nação.   Eram considerados os imundos renegados. Se um dia eles decidissem migrar, todos ao mesmo tempo, logo chamariam a atenção da vizinhança de Israel, e, mal vistos como passaram a ser, poderiam ser atacados e totalmente dizimados, pois o que quer que viessem então a fazer seria interpretado como um novo mover inconveniente, devido ao ódio que geraram.

Estavam longe de alcançarem um lugar confortável para si.   A ruína os alcançara, e eis tudo.

Voltar para suas cidades que foram destruídas?   Para quê?   Não tinham mais as suas famílias!   Reconstruir ali suas antigas moradas seria reavivar em suas memórias a tragédia que os arrebatou.   O passado supostamente feliz se desmoronou, e então só lhes vinham lembranças de tristeza, o que minava-lhes a motivação para viverem.   Quereriam eles, por certo, voltar a constituir suas famílias, mas como?   As mulheres cananitas, talvez… quem sabe pudessem ser estas uma opção, mas havia ainda um outro problema: elas estariam sob regime de submissão ou escravizadas por Israel.   Os cananeus vizinhos certamente pensariam que uma união ou mesmo uma associação com os benjamitas poderia causar-lhes encrencas futuras, pois que esta tribo havia-se tornado inimiga ferrenha de todo o restante dos israelitas.   Seria como que caçar novos problemas e um acentuar dos já existentes.

O passado passou a condená-los e o futuro não lhes parecia nada promissor.

Havia, no entanto, uma luz no fim do túnel: o povo de Israel era descendente de homens de Deus, o Grande Eu Sou, tremendo em misericórdias!   Ele ainda era o grande e misericordioso Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

Após o desastre nacional ter passado, os israelitas foram a Betel, e ali se sentaram e, prostrados profundamente dentro de suas almas, oraram ao Deus de Jacó.   Perguntavam: — “Por quê?” E tornavam a perguntar: – “Por quê? Por quê? Por que tudo isso nos aconteceu?”

Começaram a ponderar.   Avaliaram as perdas. Eram muitas e bastante severas, mas a pior de todas era sentirem-se desfalcados e separados de uma tribo irmã.   Havia-lhes sido cortada uma parte do corpo de sua nação.   Pelo andar dos acontecimentos, não seriam mais doze, como antes.   As coisas estavam rumando para a extinção completa, ou talvez na melhor das hipóteses, na separação definitiva de toda uma tribo semiextinta.   Se a moda pegasse, qual seria a próxima tribo a entrar na lista negra?   Aquela tribo insensata perdera as condições de voltar a possuir suas próprias terras, herança que o Senhor Yaweh lhes havia outorgado. Além disso, Israel já considerava haver perdido uma parte do povo que tinha recebido as promessas de Deus.    Eram, no fundo, seus irmãos, filhos de Jacó.   Jacó então estava perdendo seu filho mais novo, e os seus filhos estavam perdendo uma de suas tribos.

O Espírito de Deus, no desenvolver da conscientização da real situação, estava trabalhando, constrangendo os corações.   Ele estava convencendo aos israelitas do pecado, da justiça e do juízo.   Quando o povo de Deus pára a fim de meditar diante da presença do Senhor, coisas acontecem.   Lágrimas rolam pelas faces, sentimentos de vingança desaparecem, os ânimos se acalmam, o equilíbrio volta a percorrer livre pelos pensamentos, e as motivações do coração tornam-se mais nobres.   Uma condição tal como aquela realmente é lamentável, e o perdão volta a ser uma proposta agradável para ambos os lados.

De repente, algumas soluções poderiam vir bem a calhar…

Na ira, o Senhor ainda tem usado de misericórdia. Depois daquela tempestade cerebral, as coisas tendem a voltar ao normal e cair na velha rotina, mas alguma coisa os está incomodando.   As cabeças esfriaram e os ânimos se acalmaram.   Começaram a pensar de forma diferente. Não mais com ódio de irmãos.   Sem mais rancores, os dissabores foram desaquecidos.

Um resquício do amor de Deus brota nos corações.   Os homens percebem que apesar de tudo, ainda lhes restou, no fundo de suas almas, um tanto de amor fraterno.   Não desejavam, afinal, a desgraça de seus irmãos.

E agora, como reparar o mal já feito?   Agora sentiam que a dose do castigo foi excessiva. Como sarar uma chaga que eles mesmos abriram, ferindo Benjamin de forma a fazê-lo desaparecer da terra?   Pois eles mesmos juraram, na indignação, que não dariam nenhuma de suas filhas para serem mulheres dos benjamitas.   Este era um problema intrincado, mas que precisava ser resolvido.

Procuraram saber quem, das cidades de Israel, não veio a atender à convocação para aquela guerra.   Se alguma delas tivesse faltado, esta teria cometido um erro grave: – a soberania nacional fora desrespeitada, e desafiada.   Tal cidade se teria colocado tacitamente solidária à posição dos criminosos de Benjamin, e precisaria ser disciplinada.   Como?   Menosprezaram a união nacional, e isto significa dizer: – “Não queremos que vocês nos digam o que faremos, e não aceitamos a sua autoridade sobre nós” – em outras palavras, este era um sutil grito de independência.

Dentro do contexto histórico da época, na verdade este era o espírito de muitos com relação ao Senhor Yaweh.   Queriam ser independentes de Deus, da Lei, prontos a manifestar a sua rebeldia, adotando aos deuses que quisessem, o código de honra que escolhessem de acordo com sua vontade mal acostumada, e as normas que bem achassem convenientes a eles.

Os israelitas resolveram acabar com esse problema que se originou nas terras de Benjamin à sua maneira.   Eles haviam exposto suas próprias vidas a fim de colocar em ordem a sua casa, e trinta mil soldados seus morreram naquelas batalhas.   Todo este sacrifício, enquanto alguns poucos cidadãos, os de Jabes-Gileade, pareciam dar de ombros e ridicularizá-los com o seu menosprezo, enquanto assistiram impassíveis a Israel debatendo-se contra Benjamin.   Então, isto sim lhes esquentou o sangue, e em geral, reagiram de forma radical.

O que teria que ser feito?

Os de Jabes-Gileade não prestaram juramento algum, e portanto, poderiam bem ser tomadas as suas jovens para que estas fossem entregues aos benjamitas.   Logicamente, isto não seria feito às boas maneiras.   Obrigá-los a tanto seria armar outro conflito interno.   Logo, a conclusão foi rápida: para punir os espíritos rebeldes, deveriam logo atacá-los sem aviso, e para solucionar-se o problema dos benjamitas, iriam sequestrar as jovens da cidade. Para que ninguém viesse a sobreviver e reclamar seus direitos ou nutrir mágoas ou espírito de vingança, toda a cidade seria condenada.   E assim foi.   Lamentavelmente, mais uma matança, mais um genocídio, do qual somente quatrocentas jovens virgens foram poupadas com vistas a serem esposas dos homens da tribo quase extinta.

O que dizer disto?   Que esta é a diferença entre a Lei e a Graça de Deus.   A Lei mata, e a Graça de Jesus nos dá vida.   Quando a Lei foi outorgada, muitos morreram (Êxodo 32:25-28), e quando a Graça de Jesus foi derramada no dia de Pentecoste, muitos foram salvos (Atos 2:37-41).   A Lei trouxe a consciência do pecado e de sua consequente punição; a graça de Jesus nos trouxe o perdão divino.   O suplício dos habitantes de Jabes-Gileade procedeu de sentimentos instigados pela Lei; o estender das mãos aos benjamitas, da Graça de Deus.

Ainda restavam duzentos homens sem esposas, e sem possibilidade de constituírem uma nova família.   Suprir esposas a quatrocentos homens foi um ato de compaixão, mas ainda incompleto.

Para esta equação, os de Israel usaram de astúcia e sutileza.   Eles não dariam duzentas mulheres aos benjamitas, mas permitiriam que estes as… raptassem e as levassem consigo!   Interessante a inventiva desta saída – uma solução nada ortodoxa, bem incomum, e assim concordaram e deram as mãos novamente aos filhos de Benjamin.

Logo, um destacamento de mensageiros, como uma comitiva composta de alguns homens vão até os benjamitas, (os quais ainda se reuniam junto à Rocha de Rimon) naquela missão de paz toda especial, levando-lhes como verdadeiros presentes vivos, aquelas quatrocentas mulheres tomadas da cidade de Jabes-Gileade.

Assim como o Senhor fez água brotar da rocha em Refidim para o povo de Israel, quando de sua peregrinação pelo deserto da Arábia (Êxodo 17:1-6), bem como a fez brotar para Sansão, em Leí (Juízes 15:18), Ele fez brotar a misericórdia aos filhos de Benjamin.   Assim é a graça de Deus!

Como ainda duzentos homens da tribo semiextinta ficaram sem mulher, um acordo intertribal veio a ocorrer.   Em uma celebração anual em Siló, onde se localizava o Tabernáculo do Senhor, muitas jovens vinham dançar em rodas, próximo a algumas vinhas das cercanias.   Os líderes de Israel entraram em comum acordo com os de Benjamin, permitindo-lhes que estes fossem até aquelas vinhas para observarem bem àquelas jovens faceiras e dançantes, raptassem-nas e as levassem para as suas heranças na Eretz Israel.   Foi exatamente o que fizeram, de acordo com o combinado.

É impressionante vermos com que facilidade os homens de Israel, andando afastados do Senhor e de Sua Lei, faziam coisas tão espantosas e assustadoras. Uma guerra interna trouxe drásticas consequências ao povo.   Muitíssimo sangue foi derramado, e, depois de tudo, o arrependimento fez a balança da justiça propender para a misericórdia. Graças a Deus!   Não fosse assim, não chegaria a existir um apóstolo Paulo, descendente da tribo de Benjamin

O verso final do livro de Juízes solta uma nota muito melancólica: não havia rei em Israel, e cada um fazia o que achava correto, para não se dizer que fazia o que bem lhe parecia, ou ainda melhor: o que parecia ser conveniente para si mesmo.   Isto significa dizer: “legislavam” em causa própria, em detrimento do direito do próximo.   Com isso, o cumprimento da Lei do Senhor passava a relaxar-se.

A questão, afinal, não foi a falta de um rei, pois Abimeleque (Juízes 9) já se havia sagrado rei em Siquém, mas não nas bases da Lei do Senhor e isso não foi para abençoar o povo. Não fora Abimeleque colocado no trono pela mão de Deus, e no final sua história terminara em outras tragédias.

Mais ainda nessa época em que as barbaridades se acentuaram, teriam os israelitas que se apegar forte e intimamente com o seu Deus, e as coisas teriam terminado em um final muito mais feliz.

Quando observamos que, nesses trezentos anos do livro de Juízes, o quanto os israelitas andaram longe dos caminhos e da presença de Deus, e quão alto preço tiveram que pagar por esses atalhos oportunistas por onde trilharam, era de se esperar que o Senhor Yaweh lhes virasse as costas, e nunca mais lhes desse satisfação ou oportunidade alguma, mas não foi assim que aconteceu.   Muito pelo contrário.   Ele é o Deus que se inclina às orações dos que sinceramente e de todo o coração O buscam com vistas a obterem Seu favor, e os atende, mesmo que para isso tenha que alterar as leis naturais, e produzir os Seus milagres.   Ele tem misericórdia, e por isso, o Seu coração se compunge ao ouvir os Seus clamarem por Seu socorro. Ele é assim, benigno, misericordioso, longânimo e disposto a nos ouvir quando abrimos nossos corações em Sua presença.   Felizes os que O encontram e passam a desfrutar dos altos benefícios que Ele tem em Suas mãos para nos dar.

“Feliz é a nação cujo povo é o Senhor” (Salmo 33:12)


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