O LIVRO DE RUTE – I – A TRAGÉDIA CONVERTIDA EM ALEGRIA

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septiembre 14, 2015 by Bortolato

Força na fraqueza

Agonia e êxtase.   Uma transformação que somente Deus poderia fazer.   Após uma grave aflição causada pela morte de três pessoas em uma família, um futuro obscuro se desfaz com a projeção de luzes do céu para duas viúvas.   É a história comovente de duas mulheres notáveis, chamadas de Noemi e Rute, que nos chama à atenção pela auspiciosidade.

Depois de uma tempestade, vem a bonança… esta seria a frase que melhor se encaixaria com a narrativa do drama familiar que se desenrola no Livro de Rute, em que uma tempestade da vida passa, e dá lugar a um dia cheio de sol.

O livro leva o nome da figura principal que é focalizada em toda a história.   Embora o chamemos de “Livro de Rute”, sabe-se que ela não teria sido a pessoa que levou o tema para o pergaminho dos livros denominados de “Meghiloth”.   O profeta Samuel é apontado como o autor da obra literária, a qual teria sido buscada para descrever a origem genealógica do rei Davi – e, portanto, foi finalizada no período deste rei de Israel.

A narrativa se prende a fatos ocorridos durante o período em que Juízes julgavam o povo de Israel, provavelmente iniciando-se algum tempo antes de Gideão ser levantado para lutar contra os midianitas, naqueles anos de fome que assolaram a terra de Israel, isto é, em cerca de 1.190 A.C.   Fugindo da fome, a família de Elimeleque migra para Moabe. Depois da morte de Elimeleque e seus dois filhos, o retorno de Noemi veio a acontecer quando já os israelitas podiam plantar, contar com boas colheitas, colhê-las e viver em paz.

O enredo deste livro é pautado em cima de várias adversidades da vida – primeiramente a fome em Israel; o êxodo da família de Elimeleque, seguido depois pela viuvez de Noemi, seguindo-se mais tarde a viuvez de Rute e Orfa.

A história torna-se envolvente, e nos comove pela maneira com que Deus coloca sutilmente a Sua mão sobre a vida das duas mulheres viúvas que se mudaram para a terra de sua herança, obedientes e submissas às leis do Senhor Deus.   Não tinham ninguém, inicialmente, para ajudá-las; tudo lhes parecia prometer uma vida humilhante de mulheres desafortunadas pela fatalidade, as quais passaram a viver de rabiscos, das sobras das colheitas e das incertezas e interrogações sobre os dias seguintes.   Cada dia trazendo uma luta, um trabalho de recompensa incerta, e no empenho com vigor a fim de vencer-se cada etapa que cada dia oferecia.

A Palavra de Deus diz que “Pai de órfãos e Juiz de viúvas é o Senhor…”   Elas se colocaram nas Suas mãos, e Ele não lhes faltou.

Rute era moabita.   Interessante notar: não era uma das nativas de Israel. Era descendente de Moabe, um dos filhos de Ló, concebido e nascido de um ato incestuoso…   Filha de um povo que não conhecia e nem servia a Yaweh, povo idólatra.     Mas a fama de Yaweh foi muito tempo comentada entre os povos que puderam observar algumas das Suas maravilhas… Os próprios moabitas foram testemunhas de que Israel um dia saiu de sua peregrinação de quarenta anos pelo deserto (c. 1450 AC), e pediu passagem pelas terras de Moabe, o que lhe foi negado.     Assim, os moabitas se recusaram a ajudar aos israelitas peregrinos, negando-se a socorrê-los com pão e água. Por este motivo, esses “primos” de Israel estavam proibidos de entrar na assembleia do Senhor até a décima geração (Deuteronômio 23:3).   Isto ficou registrado na Lei de Moisés, e tal registro marcava aquele povo estrangeiro com um estigma que os rebaixava, que os diminuía diante de Deus e dos israelitas.

Esta restrição não foi empecilho para que a moabita se casasse primeiramente com Malom, e depois com Boaz.   Decididamente ela foi uma mulher além do seu tempo – além do tempo da dispensação da Lei, avançando para a dispensação da Graça, e alcançando a chave do coração de Deus.   Ela logrou tornar-se a bisavó de Davi, e uma das ascendentes de Jesus, o Messias.

Amável, solidária, fiel nos seus compromissos, e disposta a ir até as últimas consequências, apegando-se à sua sogra.   Ela percebeu que Noemi estava vivendo dias muito sofridos; sua sogra estava com o coração partido, realmente moído, e aquela sequência de falecimentos na família a estava levando constantemente a prantos.   Rute sentiu-se compartilhando da mesma desdita, e seu coração jamais lhe permitiria abandonar àquela que um dia abriu os seus braços e o seu lar para recebê-la como se fosse sua filha.

Noemi já era idosa, e a jovem moabita tinha forças para trabalhar ainda por bom tempo.   Apesar de jovem ainda, não titubeou em levar a sério a ligação de família que alcançara por seu primeiro casamento.   Aceitou ser um esteio, uma coluna de apoio na vida da viúva Noemi.

Ao casar-se com Malom, ela uniu-se também ao Deus da família, do clã de Belém, da tribo de Judá e do povo de Israel (“… o teu povo é o meu povo, e o teu Deus é o meu Deus!”). Notar bem que ela não disse que será, mas que é! O teu Deus é o meu Deus!   Ela já havia aberto o seu coração para pertencer a esse Deus que, durante algum tempo antes, não O conhecia.

Durante o tempo em que veio a conviver com seu primeiro marido, já pôde notar quem era o Deus de Israel, e a Ele se apegou.   Como foi bom ter ouvido falar dEle!   Ela ficou encantada! Nunca antes ouviu falar de um Deus como Yaweh, que demonstrava tamanhos poderes, e uma disposição ímpar para conviver com um povo, coletiva e individualmente. E a Sua santa Lei, com os preceitos morais tão mais elevados, e tão sábios, como nenhuma outra lei…

Realmente, fatos históricos que apresentam Yaweh não têm comparação com o que outros deuses puderam apresentar.   Não há outro Deus igual e nem semelhante. Cremos que Rute notou a diferença, e então, ao participar das orações e práticas prescritas pela Torah juntamente com a família que a acolheu, ela se encantou com o maravilhoso Deus de seus sogros e de seu marido.   Ela então chegou a conhecer, a princípio, pelo menos de ouvir falar, ao Senhor Yaweh, mesmo estando em terra estrangeira, e sendo uma moabita.   O seu coração se deixou enlevar pela elevada justiça e doçura do Senhor, ao ponto de esquecer-se que não era uma nativa daquele povo abençoado… para ela, era como se tivesse nascido naquela nação, mesmo estando fora de suas fronteiras.

Mais do que ter aderido à nova fé, ela compreendeu que o Senhor é o único Deus, exclusivo e somente Ele.

Além disso, o livro mostra que, muito embora o Senhor Yaweh seja Deus terrível, de justiça que ao culpado não tem por inocente, Ele tinha escolhido Israel para revelar-Se ao mundo – e ela se incluiu neste plano de revelação.   Ele olha com compaixão para os que sofrem, e acolhe aos que O buscam, aninhando-os debaixo das Suas asas – sejam estes quem forem, sem discriminação de raça, sangue, tez ou nação.

Rute abandonara aos deuses de sua pátria Moabe e escolhera servir e amar ao Deus que a impressionara, mesmo estando debaixo das mais difíceis condições de vida material.   Ela passou por duras provas e sofreu voluntariamente ao lado de sua sogra, a quem prestou serviços de profunda fidelidade, um verdadeiro exemplo para o mundo todo.

Vale frisar que há cinco qualidades das quais Deus se agrada, e esta foram encontradas com nota de louvor, pelo excelente desempenho mostrado por Rute: fé, humildade, amor ao próximo, perseverança e fidelidade.   Todo servo de Deus precisa destas para manter viva a chama da esperança de dias melhores nesta Terra.

Mostrando ela tais qualidades, fez com que a manifestação do beneplácito da Sua graça lhe fosse estendida, sobrepondo-se à Lei.   Rute foi, sem dúvida, a exceção, o “remendo novo” que se ajustou, aninhou-se e carinhosamente coseu-se sobre panos tidos por velhos, de forma que seus filhos e descendentes fossem, em vez de impedidos de entrar na congregação do povo de Israel, ainda chegassem à posição de reis do povo escolhido pelo Senhor.

O livro de Rute demonstra também uma certa tendência que o povo hebreu tinha de atribuir nomes às pessoas de tal forma que uma palavra definisse a essência de seu ser. Foi assim que chamaram Gideão de Jerubaal; Esaú foi chamado de Edom; Judas Tadeu era chamado de Lebeu; Tiago e João foram chamados de Boanerges, e Jesus deu o nome de Pedro a Simão Barjonas.

Noemi, em dado momento, recusou-se a ser chamada deste nome, porque estava amargurada em seu espírito, reação comum a quem sofreu o golpe de uma grave desdita na vida.   “Naomi” (hebr.) significa “meu deleite”, e ela, em sua tristeza, preferia ser chamada de “Mara”, que quer dizer: amarga.

Rute é um nome que não tem tradução precisa, mas em hebraico há um verbete, “re’üth”, que se traduz por “companhia feminina”.   Possivelmente este nome seja, pois, uma forma contraída desta palavra. Lembramos que os moabitas usavam originalmente a mesma língua que a de Abraão, pois aqueles são descendentes de seu sobrinho, Ló.   E Rute realmente foi uma companheira fiel para Noemi.

Elimeleque é o nome traduzido por “Deus é meu Rei”, o que aponta para o fato de que este homem reconhecia que pertencia ao povo de Deus, e portanto, também à família de Deus.   Isto pareceu ser uma profecia lançada sobre ele quando ainda criança, quando este recebe este nome, ao vir a este mundo. De qualquer maneira, o seu destino era morar eternamente com Yaweh, pois que pertencia ao povo do Senhor Yaweh.

Outros nomes que despontam no livro deixam-nos a pensar como chegaram a intitular as pessoas que passaram a ser chamadas assim.   Profecia? Ou coincidência? Ou um epíteto que lhes fora dado depois de ocorridos os incidentes que lhes surpreenderam? O fato é que Malom é traduzido do hebraico por “enfermidade, definhamento”; Quiliom significa “consumação, ato completo”; e Boaz soa algo semelhante a “pela Sua força (de Deus)”. Seja como for, essas correlações são, no mínimo, curiosas.

A MISERICÓRDIA E O AMOR DE YAWEH

O livro de Rute, descrevendo uma linda história que ocorreu no tempo dos Juízes, revela que nem tudo estava perdido, pois apesar da asqueirosa idolatria ter penetrado no meio do povo chamado para ser separado e de exclusiva propriedade do Senhor, houve esta vertente que contrastava convergindo para atos agradáveis ao Deus Santo.

Os relatos tenebrosos do livro de Juízes contrastam em muito com o acontecimento que ocorrera na família de Elimeleque, onde, do meio de uma destruição drástica, das ruínas Deus fez levantar-se uma família que viveu e multiplicou seus descendentes, de forma a trazer muitas bênçãos ao povo de Israel.

Ao remir o campo que era de Elimeleque, Boaz faz o papel do Remidor, prefigurando a redenção que Jesus veio nos trazer, de modo que o livro é, por analogia, uma profecia onde vemos muitas semelhanças entre a noiva de Cristo e Rute. Ela não era do povo de Deus, mas passou a sê-lo, ao ser remida por Boaz, tal como a igreja, mesmo não sendo da linhagem hebraica, foi adotada por noiva remida pelo sangue do Cordeiro.

Um outro parente próximo a Elimeleque não quis remir a sua propriedade, eximindo-se da responsabilidade a fim de não misturar de seu sangue com o da família do falecido, o que tinha implicações na divisão da herança dos filhos.   Já Boaz, totalmente aberto àquela remissão, não se importou, aliás até se alegrou com doar do seu sangue para que a descendência de Elimeleque compartilhasse de suas posses.   Semelhantemente também Jesus Cristo doou o seu próprio sangue para que fôssemos Seus herdeiros, e compartilhássemos de Seu sacerdócio real, e fôssemos chamados de filhos do Rei.

O livro de Rute nos mostra que desde o princípio Deus incluía os povos gentios nos Seus planos, mesmo no período do Velho Testamento.   Aceitando o enxerto de Rute à oliveira de Israel, o livro traz uma palavra de esperança maravilhosa, que só seria melhor explicada e esclarecida com a revelação de Cristo no Novo Testamento. Deus é Deus para todos os povos, e não somente para Israel.   Todos quantos queiram receber o Seu Filho Jesus como seu Salvador e Senhor, recebem a promessa de pertencerem ao Seu eterno Reino.

Esta história, pelo seu enredo cativante, assemelha-se a um romance dentro das Escrituras Sagradas, mas é bem mais que isto.   Foi a maneira que Deus usou para fazer coisas que O glorificam, mesmo que lançando mão de recursos aparentemente humanos.   Foi um drama suavizado pelas ternas misericórdias do Senhor sobre uma família; logo, todas as famílias da Terra Lhe são queridas e preciosas aos Seus olhos.

Quando alguém passa por dificuldades tamanhas como as lemos neste livro, pode lê-lo e encontrar o lenitivo da esperança, baseado na promessa de que o Deus vivo, que é Justo Juiz, tem grandes misericórdias a serem ministradas em favor dos Seus.

Os sofrimentos do presente podem até surgir, em meio a nossa falta de visão espiritual mais adequada, ou da ausência de um conhecimento mais aprofundado sobre certas coisas, mas seja como for, a melhor opção, no caso, é orar, conversar com Deus e esperar dEle o auxílio.

O livro de Jó e o livro de Rute são concordes me mostrar-nos tal verdade.

Quanto tudo parecer perdido, somos destarte convidados a mantermos a fé e a esperança, levantarmos nossas cabeças e olharmos para cima.   Há uma redenção que nos espera à frente, a qual nos move a caminharmos em sua direção – o nome desta redenção?   Seu nome é Jesus, e o Seu amor não falha!


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