I SAMUEL – XVII – O FORMÃO DE DEUS

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enero 15, 2016 by Bortolato

espadas cruzadas

Alguns o chamam de “Patrola de Deus”; outros de “Talhadeira de Deus”, ou ainda de “Tesoura de Deus”, querendo referir-se a instrumentos que o Altíssimo usa para trabalhar com o nosso caráter, a fim de preparar-nos bem para sermos pessoas úteis, capazes, dotados de dons especiais, prontos para obras que dignifiquem o Seu Nome.

Às vezes o Seu trabalhar com tais ferramentas que modelam nossas almas faz com que nos sintamos em dificuldades, ou em situações inusitadas.   Isso dói, mas não destrói senão os tipos de comportamento inadequados que nosso temperamento produziria, e que é mister que sejam cortados e lançados fora.

Quem pode entender um agir de Deus desta maneira?   Muitos não o compreendem, e quando chega o tempo da poda, ou da modelagem, ficam confundidos, lamentam, reclamam, e outros até blasfemam – o que não lhes traz nenhum proveito, nessas ocasiões.   Tais ocasiões seriam oportunidades de aprender-se mais um pouco, fazendo-se uso da fé, e, em tudo dando graças a Deus, esperar-se pelo abrir-se da porta do escape.   É questão de aceitar-se ou não a soberania do Senhor com aquela submissão que denota que este é um ponto do qual jamais se deve abrir mão.

Os apertos, trabalhos e sofrimentos que os juízes, o patriarca Jó, o rei Davi e outros nos mostram que há uma grande recompensa para os que se prestam a passar pelo processo de serem formados pelas ferramentas de Deus.   Não é um caminho fácil, e por isso mesmo é que poucos são os que se dispõem a passar por ele, e saem vencedores no final.   E é por isto, também, que poucos são que se destacam nesta via.

É a arte de saber como sofrer perseguições, passar por tribulações e lograr êxito na jornada, aprendendo muitas coisas da vida, não raro entre trancos e barrancos, podendo também, por vezes, até mesmo errar ao encetar uma tentativa de escape, mas sempre tentando acertar, sendo orientado por Deus e recebendo a graça do céu de ver os inimigos falharem em seus intentos perniciosos, enquanto o abençoado levanta-se e mostra-se sustentado pela mão do Todo-Poderoso.

Formão é aquele instrumento usado em marcenarias, e em fábricas de móveis artesanais, o qual tem a função de fazer sulcos desenhados em madeira, a fim de adorná-la com primor.

Antes da aplicação do formão, sabemos que a madeira é cortada nas dimensões e formato certos para ser aplainada, e depois disso o artista a recorta, e desenha nos pontos de sua superfície onde se irão fazer os sulcos com o formão.   Depois que o formão faz os sulcos sobre os desenhos, ainda é preciso usar-se a lixa para deixar a obra bem lisa.   Depois ainda vem a pintura.   O processo parece ser um pouco complicado, mas é mais do que isto, é um caminho onde brilha a luz de Deus.

Se nos dispomos a ser moldados por Deus, teremos um processo desse tipo para passarmos, pois foi nas maiores lutas e bravatas que surgiram os atos de mais elevada fé, de onde também saíram as mais famosas vitórias na vida.

Se, porém, não nos dispormos a sermos assim trabalhados pela mão do Divino Mestre, o Grande Carpinteiro, então não passaremos de matéria prima não utilizada ou, quando muito, inacabada, a qual não servirá para o fim a que o Senhor deseja nos propor.   O que acontece com estes?   Ficam à parte, inaproveitáveis e inúteis.   Bom é preparar-nos para sermos conforme o Grande Artesão quer nos formar.   Que Ele use a plaina, o formão, a lixa, pregos, e o que for necessário para nos dar o Seu acabamento, o que será uma glória.

Em I Samuel, capítulos 20 e 21, lemos acerca de graves provações por que passou Davi, o pastor, harpista e guerreiro durante um período de fortes emoções, muitos perigos, apertos para ele e para os que o acompanharam.   Esse tempo não foi de uns poucos dias ou meses, mas estima-se que durou cerca de dez anos, tendo-se iniciado quando o salmista deveria estar com perto de seus vinte anos de idade.

Dez anos de clandestinidade para Davi ter de enfrentar!   Robin Hood foi apenas uma espécie mítica distorcida, do gênero que foi Davi, o perseguido pelo rei Saul.   Seu “crime” foi querer ser um correligionário eficiente até demais, alcançando mais sucessos que o próprio rei, muito embora fosse fiel a Saul e a seu reinado.

Todos notavam: o tamanho dos seus sucessos era tão grande que era bem possível que Deus estivesse querendo fazê-lo rei de Israel, mas isso não lhe viria assim tão facilmente.   Havia um caminho bastante tortuoso à sua frente.   Era o preço a ser pago por ter recebido aquela unção das mãos do profeta Samuel!

I Samuel 21:1 nos diz que Davi veio a Nobe, cidade para onde, muito provavelmente, Saul teria transportado o Tabernáculo, a alguns poucos quilômetros de Gibeá, local onde aquele monarca assentava sua residência e sua base de comandados.

Por que razão iria Davi até Nobe?   Para consultar ao sacerdote Aimeleque, filho de Aitube, neto de Eli.

Davi tinha ido inicialmente a Ramá para consultar ao profeta Samuel, mas ali foi achado por Saul.   Dali vai então a Nobe.

Aimeleque não sabia ainda que Davi era um proscrito procurado e sentenciado à morte.   Recebeu-o tremendo, assustado, porque o jovem belemita era muito usado para rechaçar ataques de povos inimigos.   Que perigos será que estariam rondando a cidade de Nobe?   Por que o oficial militar mais famoso pelos seus feitos magníficos estaria ali?   Por onde ele passava, por certo que haveria alguma ameaça, ou algum perigo acontecendo. E por que ele veio sozinho?   Estaria passando por alguma fuga das mãos dos inimigos depois de algo dar errado?   Aimeleque ficou surpreso, preocupado e temeroso.

O jovem guerreiro, com cerca de vinte anos de idade, fugitivo, estressado, cansado e faminto, apressado, com muita avidez por conseguir encontrar uma segurança fora dos perigos que o cercavam, aplica então uma mentira.   Diz estar em uma missão urgente, saiu com pressa e deixou seu destacamento militar em um lugar próximo e pede ao sacerdote cinco pães, ou quanto tivesse disponível, para si e os seus homens que o aguardavam.

Os pães da proposição eram os únicos que havia ali.   Era uma sexta-feira. Todas as sextas-feiras os sacerdotes assavam doze pães e os colocavam perante o Senhor sobre a Mesa da Proposição, que ficava no primeiro compartimento da Tenda da Congregação, substituindo aos que ali estavam anteriormente, pois assim se fazia pela preparação de todos os sábados.   Davi sabia disso, pois era um costume conhecido da Lei de Moisés.   Certamente ele foi ali com o propósito de obtê-los, pois lhe parecia ser uma boa ocasião para isto.

Ora, tais pães substituídos eram destinados somente aos sacerdotes, mas Davi, como estava com muita fome, pressionou a Aimeleque, que por considerá-lo um forte defensor de seu povo, cedeu-os, apenas com a condição de que os homens que os haveriam de comê-los estivessem limpos cerimonialmente.   Os atos sexuais desqualificavam até mesmo aos sacerdotes para que pudessem ingeri-los, até que estes se purificassem através de um rito de lavagem do corpo.

Na verdade, Aimeleque consentiu naquela quebra dos protocolos da Lei, pensando que Davi seria usado por Deus mais uma vez em uma “missão secreta urgente”, e esse ato foi aprovado por Jesus, conforme lemos em Mateus 12:3,4, certamente por supremacia da máxima de Mateus 12:7:

“Misericórdia quero, e não sacrifícios…”

Alguns teólogos colocam um senão neste trecho, recriminando o comportamento de Davi no uso de inverdades, pois o jovem dissera que estava em uma missão especial, e que seus homens estavam todos limpos de relações sexuais fazia três dias.   Cremos que de fato havia mais homens esperando por Davi logo ali perto, mas o fato é que ele assumiu uma palavra por aqueles, tão enfaticamente que, se verdadeira, atribuía aos seus companheiros uma condição que não era de se esperar que lhes fosse pedida como pré-requisito para poderem comer os pães.   Arriscou ao dizer assim?   Mentiu também sobre este aspecto?   O fato é que Jesus não os condenou, mas pelo contrário, convalidou o proceder do jovem salmista.

Apenas para lançar luz a essa controvérsia, lembramos que a mentira que Jônatas, combinado com Davi, apregoara a Saul no capítulo vigésimo de I Samuel e vem-nos a pergunta: Deus aprova mentiras?   Até que ponto vale a pena usar de mentiras?

A resposta a esta pergunta se vê no tocante à obrigação moral de termos que preservar a vida, e se, para conservá-la, tivermos que prestar informações erradas a alguém, o que é mais importante: o nosso compromisso com a verdade (o que seria uma faca de dois gumes), ou salvar a vida de pessoas? Qual dessas opções seria imoral, no caso?   O que é imoral: salvar vidas de pessoas, ou expô-las à morte?   Logo, conclui-se que há verdades que, uma vez expostas, configurariam verdadeiras imoralidades, e certas inverdades que são moralmente corretas e aprovadas por Deus.

Davi não estava em “missão urgente” comissionado pelo rei Saul, mas estava empenhado em salvar a sua própria vida e a dos seus companheiros daquela jornada, e pediu ainda que Aimeleque lhe desse alguma espada ou lança.

A espada de Golias, o filisteu, estava ali, pendurada em uma parede para servir de estímulo à fé para todos os que a vissem, pois Davi matou ao gigante quando este portava aquela arma, usando apenas de uma funda.   O sacerdote ofereceu-a, e Davi tomou-a para si com prazer.

Nos versos 10 a 15 de I Samuel, capítulo 21, vemos que Davi, na sua pressa de fugir para salvar-se, estava mais impelido pelo medo do que por fé.   Ele raciocina que, depois de ter visto Doegue, um edomita, um dos pastores de Saul em Nobe, seu paradeiro estaria prestes a ser denunciado, e decide que as terras do povo inimigo de Saul lhe seriam convenientes naquele momento, e assim ele caminha cerca de 36 quilômetros para ir até Gate, cidade filisteia.   Não foi uma boa decisão.

Em ali chegando, logo foi reconhecido como o Davi que matou a dez mil filisteus!   Aliás, Gate era a cidade de Golias, o gigante morto por ele mesmo!   Ali os filisteus pressionaram ao rei Áquis para que este tomasse alguma providência a respeito, pois aquele era o ensejo mais fácil que tiveram de poderem aniquilar àquele que tantos males lhes vinha causando.   A tradição judaica diz que ele foi aprisionado em Gate.

Davi ficou sabendo dos comentários maldosos que estavam correndo a seu respeito.   Aquele foi o momento em que Deus lhe inspirou o Salmo 56, do qual obteve maravilhosa resposta.

Na sua precipitação o salmista estava em lugar errado, na hora errada, mas apesar de seus erros, ele ainda cria no seu Deus, e a sua causa foi ouvida, sim, não por Áquis, mas pelo Senhor de toda a Terra.

Ao ser apresentado perante Áquis, Davi simulou um comportamento bizarro, como se estivesse louco.   Atirou-se às portas da cidade, arranhando-as e fazendo com que sua saliva escorresse pela barba.

O rei Áquis logo concluiu que Davi estava acometido de alguma loucura, totalmente alienado de si, e ordenou que este fosse afastado de sua presença.   Por julgar que um louco não seria uma pessoa perigosa, deixou-o escapar daquela cidade, e assim ele foi salvo.

Saindo de Gate, Davi é inspirado a compor o Salmo 34, dizendo:

“Clamou este pobre e o Senhor o ouviu, e o livrou de todos os seus temores”, e engrandeceu a Deus com toda a sua alma.

Somente quem sofreu as angústias do Salmista é que sabe como foram, e a que custo, compostos aqueles dois Salmos da Bíblia, mas é assim que Deus forja aos que Ele ama, com o Seu formão – e com o Seu bálsamo, o remédio que cura as feridas.

Quando passarmos pelo vale sombrio, onde não encontramos alento nas pessoas que nos cercam, que não venhamos a esquecer de que Jesus é a nossa esperança.   Muitos não sabem enfrentar esses vales da maneira correta, e desperdiçam a oportunidade de serem bem-aventurados assim como Davi o foi, mas que todos possamos dizer como o Salmista:

“Elevo os meus olhos para os montes; de onde me virá o socorro?   O meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a Terra.  Ele não permitirá que teus pés vacilem; aquele que te guarda não se descuida”. (Salmo 121:1-2)


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