I SAMUEL – XX – A BÊNÇÃO DO PERDÃO AO INIMIGO

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febrero 15, 2016 by Bortolato

Cavernas de En Gedi

V. já notou quão fácil é fazermos inimigos?   É uma arte conseguirmos viver sem confrontos, ameaças, inimizades, e perseguições.   Na verdade, o que podemos fazer algumas vezes é driblar aos que nos olham com maus olhos.   Tanto quanto é outra arte sabermos como nos esquivarmos de ser atingidos por obra de alguma malquerença.   Iludem-se os que pensam que não têm inimigos.   Basta nos posicionarmos a favor de alguma causa, e já podemos esperar que haverá opositores.   Mesmo os que queiram manter-se neutros, estes também são alvos de pessoas que discordam de sua posição.

Por vezes somos obrigados a tomar uma posição que agrada a uns e desagrada a outros. E por vezes também os nossos embates podem tornar-se acirrados, ou até mesmo ferozes.

Fato é que temos que, por vezes, lidar com o problema de como tratar com os nossos inimigos.   Endurecer com eles é o primeiro impulso que logo nos ataca às nossas mentes.   Os povos antigos eram muito cruéis quando se tratava de usar de vinganças.

Para evitar abusos neste campo, foi que Deus enviou a Lei a Moisés, no monte Sinai. Alguns dispositivos desta foram escritos para que fossem invocados e aplicados.

O Antigo Testamento é um bocado duro quando se trata de aplicar a justiça. A Lei do Talião, ou seja, da retaliação, foi lançada como uma regra para regulamentar situações que comumente levavam pessoas a cometer atrocidades, e evitar guerras pessoais.

“Olho por olho; dente por dente…” era o comando para que as vinganças nunca excedessem ao limite do dano causado pelo suposto inimigo.   Em outras palavras, era para que não acontecessem coisas piores do que já estava acontecendo, e os casos da espécie fossem tornados em verdadeiros desastres sociais e familiares.

Há, porém, algumas partes da Antiga Aliança que já nos mostravam traços de convergência para o espírito da Nova Aliança.   O autor do livro de Provérbios, por exemplo, nos diz para darmos de comer ou beber para o nosso inimigo, se este tiver fome ou sede. (Provérbios 25:21-22).

O capítulo 24 do livro de I Samuel nos conta um episódio que se enquadra dentro desta ótica.

O jovem Davi, ex-pastor de ovelhas, ungido de Deus, músico harpista cheio do Espírito Santo para expelir demônios e profetizar, soldado, ex-militante das forças oficiais do exército de Israel era muito combativo contra os inimigos de seu povo.   Com estes últimos não podia haver termos de acordo de paz, devido a crenças religiosas antagônicas e a disputas por bens e territórios – e por isso ele teve de matar a muitos desses.

Saul, seu rei, porém, também fez-se seu inimigo.   As notícias correram, e já se sabia que Davi fora ungido por Samuel para se tornar rei um dia. Os sucessos das campanhas militares de Davi também o atestavam, e isto trouxe um mau sentimento no coração daquele rei israelita: ele corroia-se da vontade de matar ao seu ex-amigo e ex-companheiro combatente que muito se esforçou para fazer de Israel um reino seguro.   Saul queria vê-lo fraco, totalmente em suas mãos, para por fim vê-lo traspassado, e pendurar o seu corpo em local público, a fim de exemplar a todos os israelitas, como que querendo dizer que “assim se faria a todo aquele que sequer intentasse fazer obras maiores do que as de seu rei…”

Davi então, sem poder escolher outra opção, tornara-se em um fugitivo da ira de Saul. Este seu rei o perseguia com contumácia e truculência. Tão constante e insistente foi essa perseguição, que já não havia mais esperanças de uma reconciliação… lamentavelmente!

Depois que algumas coisas persistiram em levantar esse clima de inimizade da parte de Saul, perpetuou-se no ar a expectativa de haver um encontro entre Davi e Saul, com um aparentemente inevitável combate corpo a corpo entre as forças de ambos.   Tudo rumava para uma próxima guerra civil em Israel – o que Davi não queria, de modo algum, e tentava sabiamente evitar tal tragédia em sua vida e na vida de seu povo. Fugir de Saul passou a ser a sua prioridade, mas às vezes isto se tornara muito difícil, por mais que o desejasse.

Todo o Israel pressentia que em breve sairia uma notícia a percorrer toda a terra, para anunciar que o tal confronto enfim chegara a realizar-se .   Pensavam que Davi tivesse que enfrentar Saul face a face, e não se sabia quem sairia vencedor de tal embate. Alguns apostavam que seria Saul, e outros propendiam a crer que seria Davi.

Que diria o povo laico? Nada, pois eles interessavam-se apenas em que tivessem um rei que os conduzisse às batalhas contra seus inimigos estrangeiros, os quais, por sinal, estavam sempre tencionando agarrar-lhes o calcanhar.

O fato é que Saul se tornara um inimigo terrível de Davi, muito embora este último nunca tivesse a intenção de usurpar a coroa do rei benjamita.

Para poder viver longe da ira de Saul e evitar o confronto fatal, Davi e seus homens foram esconder-se na área desértica ao sul de Judá, uma área coalhada de cavernas, onde seiscentos homens bem poderiam ali refugiar-se, tal como formigas se abrigam debaixo da terra, usando de várias entradas para o formigueiro. Este lugar era o deserto de Em-Gedi, onde até os dias de hoje alguns fora da lei e eremitas se ocultam dos olhos da vigilância pública.

Tão perfeito era esse esconderijo, que Saul, ao ouvir que Davi andava por aquelas paragens, tratou de reunir seus três mil homens valentes escolhidos a dedo, para ir àquele desejado encontro.   Ele queria muito achar a Davi, e o que alguns nomeariam de “obra do acaso” aconteceu – mas não foi por acaso ou coincidência – e as condições em que se deu aquele encontro trouxeram à luz o que havia no nobre coração de Davi.

Davi guardava dentro de si um respeito e uma reverência excepcionais quando se tratava de relacionar-se com aquele que injustamente se fez seu inimigo, o rei de Israel, e os acontecimentos que se sucederam em Em-Gedi foram a oportunidade de demonstrá-lo a todos.   Saul era o seu rei ungido por Deus, e aquela perseguição descabida não alterou esta condição.

Foi a ocasião que ensejou a oportunidade de demonstrá-lo. As condições tão inesperadas surpreenderam a todos.

“Contingências da vida” – diriam muitos, mas seja como for, esse capítulo da Bíblia é bastante revelador.

Saul respirava ameaças e estava com sede de sangue.   Não contava, porém, que uma necessidade fisiológica o levaria para bem perto da pessoa a quem tanto procurava.

Aquelas cavernas, que também eram usadas como abrigo para os criadores de cabras esconderem seus rebanhos do rigor das condições climáticas e dos lobos, vieram a calhar. O sol escaldante era de matar.   Em algumas horas do dia, não se ousava senão ficar descansando à sombra de uma caverna.   Não se costumava andar, nem cavalgar, e nem ficar parado à luz do astro-rei, naquelas bandas.   Era a hora mais adequada para se tirar uma sesta, debaixo de alguma sombra.

Saul, então, em ali chegando naquele momento, sentindo-se cansado e abatido pelo calor do dia, e com vontade de desapertar seu ventre (a expressão hebraica usada para referir-se a este ato é literalmente: “cobrir os pés”), dirigiu-se a uma daquelas cavernas.   Certamente que seus homens não o acompanharam para isto, pois este é um momento em que os homens gostam de estar a sós, e desfrutar de certa privacidade.

Ele vinha de fora da caverna, e seus olhos, acostumados à luz abundante do sol, mal consegue enxergar o local apropriado para desapertar seu ventre, e aquela sombra escura lhe parecia dizer que, qual um quarto escuro, era a hora propícia para relaxar os nervos. Não precisou entrar muito a fundo ali, pois a sombra da entrada do local já era o bastante para o que ele queria.

Saul olhou para o ambiente com os olhos semicerrados, e então decidiu: escolheu aquela caverna mesmo, para ali procurar aliviar-se e refrescar-se à sua sombra – mãos à obra!   E o ambiente parecia ser convidativo também para cochilar um pouco.   Para isso tudo, ele retira de suas costas o seu manto de rei, e coloca-o em um lugar apartado.   Também retira seu cinto com sua espada à bainha, e os põe de lado.   Alivia-se, e procura cobrir com terra os dejetos. Uma vez desapertado, sentindo-se seguro e bem à vontade, acha um canto convidativo, encosta-se, ajeita-se para estar bem acomodado, e não demorou para começar a entrar em um profundo sono…

Uns homens de Davi, juntamente com este, também estavam naquela mesma caverna, mais ao fundo, e os olhos destes, já acostumados com a escuridão maior da profundidade daquele local, viram muito bem quem era aquele que de repente entrou na caverna onde estavam descansando.   Saul não os viu, mas eles o viram, e como o viram! Dizer que esta diferença de percepção foi apenas um fenômeno natural que acontece no fundo dos olhos, resultante do funcionar das células bastonetes e dos cones, é ignorar a intervenção divina.

Ironia dos destino? Absolutamente não! Deus queria, sim, era provar algumas coisas para ambos os lados.

Davi e seus homens, a princípio, assustam-se com a inesperada visita.   Alguns ainda estariam dormindo silenciosamente, mas quem estava acordado, sentiu o seu coração bater mais forte e acelerado.   Até parece que Saul foi fazer-lhes companhia, mas logicamente que não era bem-vindo ali. E tudo isso acontecia com a completa ignorância de Saul, que dormia um sono solto.

Quando Saul entrou ali, podia-se ouvir apenas o silêncio rompido por alguns toques de sua ação indiscreta.

Esperou-se um tempo, o tempo suficiente para que se notasse que o rei Saul caíra em um profundo sono.   As tensões dos homens de Davi fizeram crescer um suspense, mas ao sentir que a situação estava mais favorável a eles, puderam suspirar de alívio, e ficar otimistas quanto ao ensejo que se lhes surgiu do nada, ali.

Queriam eles exultar por aquela chance de acabar com o seu adversário, mas tiveram que falar bem baixinho para se expressarem. Disseram a Davi, em tom de cochicho:

“Este é o dia em que o Senhor disse: – Eis que entrego nas mãos o teu inimigo, e far-lhe-ás o que bem te parecer”. (I Samuel 24:4)

Daquele tão aguardado encontro, uma situação inédita lhes favorece, parecendo que aquele jogo de astúcias e fugas tinha terminado com a morte do seu maior perseguidor.

Davi então não lhes responde senão gesticulando com as mãos, no intuito de deter aquela gana de ver escorrer o sangue de Saul, e vai ele próprio até o seu rei, sorrateiramente, movimentando-se devagar para sua maior segurança.  Todos seus companheiros pensaram por um instante que ele estava querendo resolver aquilo pessoalmente, e que chegara o fim de Saul.

Davi então, silenciosamente toma o manto do rei e com um instrumento afiado cortou a orla deste, voltando em seguida para o fundo daquela caverna, para perto de seus homens, os quais ficaram perplexos ao presenciar aquela cena.   Eles não conseguiam entender o que Davi fez!   Qualquer um deles teria matado a Saul em um piscar de olhos, mas não foi isso o que houve.

Antes que todos lhe perguntassem alguma coisa, Davi cochicha a eles, dizendo que jamais faria e nem permitiria tal coisa, porque ele aceitava tudo o que o Senhor Yaweh fazia – e o Senhor ungira a Saul como rei pelas mãos do profeta Samuel.   Assim como ele mesmo o fora ungido, também, e bendito seja todo o ungido de Deus. Que ninguém tocasse no ungido de Deus!

Esta era a razão porque não estendera sua mão para ferir a quem o Senhor elegera como Seu ungido.   Saul estava nas mãos de Deus, e enquanto ele vivesse, jamais poderia deixar de ser aquilo para o que fora escolhido. Como, pois, erguer a mão contra o ungido do Senhor?

Naquele momento até mesmo o cortar da borda do manto de Saul lhe fora um ato muito ousado de sua parte, e o seu coração o constrangia por isto.

Os homens de Davi ouviram isso e calaram-se.   Apesar disso, não concordavam com o gesto do jovem guerreiro de Belém.   Estavam inconformados, mas Davi lhes era muito respeitado, e por isso tiveram que aceitar aquilo sem discutirem.   Eles ouviram-no, e calaram-se.

Aquietaram-se, mas estavam inconformados.   Eles teriam feito muito diferente, para acabar logo com aquela mania louca de perseguição que estava instalada na cabeça do monarca.

Quando inimigos nos perseguem, ficamos às vezes em situação difícil.   Gostaríamos de poder erguer nossa voz e proclamar a nossa defesa perante um justo juiz, mas nem sempre isso nos é dado.

Quando o nosso perseguidor é um rei, pai de nosso melhor amigo, pai de nossa esposa e ungido pelo Senhor, as coisas ficam multiplicadamente complicadas.   Esta situação exige que respeitemos àquele que nos persegue.

No caso de Davi, bastava a ele que Saul fosse o rei de Israel que Deus havia levantado pelo Seu poder.   No mais, o restante que acontecesse, eram apenas detalhes.

Infelizmente o que mais comumente achamos neste mundo são pessoas que desconsideram que homens de Deus estão nas mãos de Deus, e não poupam ataques incisivos contra os mesmos.   Não bastando que sejam de Deus, querem que sejam também super-homens, perfeitos, fortes, irrepreensíveis e isentos de erros, a toda prova.   Não olham para a soberania de Deus, mas apenas para os possíveis erros que os Seus ungidos tenham cometido.   Não olham tampouco para os muitos acertos, e por isso procuram suster uma posição de “advogados do diabo”, somente acusando, mas um erro não justifica a um outro erro.

Valorosa e nobre foi a atitude de Davi, perdoando e poupando a Saul. Deus os recompensou por isto.

Se amamos o que Deus faz, amaremos também aos nossos inimigos humanos, apesar de seus erros.   Esta foi a palavra de Jesus em Mateus 5:43-48.

Salomão também ressaltou esta atitude em Provérbios 25:21-22:

“Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber…”

Sem o saber, Davi usou de uma máxima neotestamentária de Jesus, e veterotestamentária de Salomão.

Saul então despertou de seu sono, levantou-se e saiu da caverna;  tendo já alcançado uma distância segura, Davi apenas esperou para também sair daquele esconderijo, e gritou a Saul:

– “Ó rei, meu senhor!”

Davi prostra-se reverentemente com o rosto em terra, e inicia um discurso dramático, onde frisou com veemência alguns pontos:

A – Se Saul agia instigado por mais conselheiros, por que dar ouvidos a essas palavras?   Todo rei governante procura manter uma corte de homens que buscam analisar cada caso e aconselhar as ações e táticas de guerra. Tudo indica que os conselheiros de Saul não contrariavam a sua fúria contra Davi, mas pelo contrário, procuravam reforçá-la.

B – Por outro lado, muito embora instigado por seus homens, Davi não deu ouvidos a eles quando teve condições de matar a Saul – diferentemente do seu rei, que não teria misericórdia.

C – A prova disso é que ficou o pedaço do manto de Saul nas mãos de Davi.

D – Aquele pedaço de pano era também prova de que Davi não era um rebelde contra a coroa, apesar de ter que viver como se fosse um desses.

E – Davi esperava na justiça de Deus para que sua causa fosse julgada, mas não seria ele a estender a mão contra o seu rei ungido.

F – Davi humilha-se, comparando a si mesmo com a insignificância de um cão morto, e à pequenez de uma pulga.

G – Mas apela a Yaweh para que seja livre dos ataques de Saul.

Sábias palavras, e sábia decisão, essa de Davi.   Lição de humildade, amor e reverência para com o líder de seu povo.

Temos de considerar que muitos não podemos deter a ação de pessoas que se fazem nossos inimigos.   Não temos o condão de convertê-los à nossa causa.   Alguns desses serão inimigos nossos até o fim, pois mantêm sua opinião e não abrem mão desta por nada.

Devido à natureza humana ser tão sujeita a erros, devemos considerar que nós também somos sujeitos a estes, da mesma forma.

Temos também de considerar que um dia fomos inimigos de Deus, mas Ele, na Sua bondade, com vistas a converter-nos a Ele, enviou o Seu próprio Filho para que nossas inimizades fossem expiadas sobre Ele, na cruz.

Deus nos deu a chance de sermos perdoados, por causa de Jesus, e este perdão também pode e deve ser estendido aos nossos inimigos, com a nossa colaboração.

Um perdão estendido a um inimigo em fraqueza, desarma-o.   Saul foi desarmado pelo gesto gentil e amistoso de Davi, e naquele dia desistiu, aos prantos, de continuar a perseguição.

O tempo dirá se os efeitos do nosso perdão atingiram de fato o coração de nossos inimigos.   No caso de Saul, os efeitos foram passageiros, mas o Senhor, o justo Juiz, cuidou do caso e um dia fez cessar aquela saga descabida de Saul.

O perdão aos inimigos dá-lhes a chance destes serem felizes, mas o maior beneficiado é aquele que perdoou.

A recíproca também é verdadeira: a falta de perdão a inimigos os prende à nossa causa, mas neste caso, o maior prejudicado é aquele que não perdoou, pois este é quem teria de levar a maior carga de amargura dentro de seu coração.

“Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as fossas ofensas.” (Mateus 6:14, 15)                                                        

 


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