I SAMUEL – XXI – UMA MULHER DE VALOR

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febrero 18, 2016 by Bortolato

abigail

Estamos acostumados a ouvir falar de homens de valor.   Apesar destes formarem um grande número através da história, se considerarmos a desproporção entre estes e o rol de homens que viveram sobre a Terra, veremos que na maioria das vezes faltam os virtuosos.

E que dizer das mulheres de valor?

A história universal está repleta de exemplos de mulheres que tomaram iniciativas inéditas e oportunas, foram autoras de feitos notáveis, salvaram vidas, ficaram famosas, e foram mui honradas, ao lado ou não de seus maridos, até contrariando a expressão “sexo frágil”.

É muito mais comum também encontrarmos exemplos em que a recíproca se tornou verdadeira, mas a Bíblia, esse livro sagrado, quando menciona o nome de uma mulher, na maioria das vezes refere-se a um formidável exemplo de fé, maturidade espiritual e equilíbrio mental em horas difíceis.   É nessa linha de pensamento que mencionamos Miriam; Rute; a mulher de Abel Bete-Maaca (II Samuel 20:14-22); Débora; Ana, a mulher de Elcana; a profetiza Hulda (II Reis 14-22); a rainha Ester; a profetiza Ana (Lucas 2:36-38); Isabel e Maria, a mãe de Jesus… e a lista não para de crescer.

Chegamos a I Samuel , capítulo 25, onde encontramos o nome de uma mulher sábia: Abigail. Sensata, inteligente, afável no trato, conhecedora das últimas notícias de seu país, prendada e sabia muito bem como administrar prudentemente a sua casa – muito mais do que o seu próprio marido…

O fato notório que marcou o seu nome na história sagrada ocorreu pouco tempo após a morte de Samuel, o profeta que ungira tanto a Saul como a Davi para serem reis.   Saul, por certo, esteve em seu funeral, mas Davi, ao ficar ciente disso, aproveitou a ocasião para tomar providências com vistas a manter-se longe de seu rei temperamental.

Assim, Davi e seus homens perambularam pela região montanhosa ao sul/sudeste de Hebrom, região limítrofe ao extremo sul de Judá, fronteira desprotegida, por onde era comum haver hordas de povos nômades invadindo a terra para roubarem e saquearem o que lhes pudesse interessar.

Numa tentativa de conquistar a simpatia dos moradores judeus daquela região, Davi, com seus seiscentos, passava daqui para acolá, do deserto de Parã para Maom, chegando também às proximidades da cidade de Carmelo, que distava 12 Km ao sul/sudeste de Hebrom (termo hebraico que significa “jardim”, ou “terra frutífera”), uma boa terra pastoril, com vegetação abundante, exibindo sua tropa, mostrando uma imagem respeitável aos moradores daquela localidade.

Com essa movimentação toda, Davi e seus homens faziam o papel de policiamento extra-oficial daquelas paragens, o que era muito útil e trazia uma boa sensação de segurança aos seus patrícios locais.

A profecia de Samuel, a quem Deus usou para ungir a Davi como futuro rei, já era conhecida de todo o Israel, mormente da tribo de Judá.   Saul, entretanto, colocando-se na contramão do mover do Espírito de Deus, somente em um determinado momento, em En Gedi, (onde Davi poupou-lhe a vida) reconheceu a unção davídica como verdadeira, e as palavras de Samuel neste sentido, como procedentes da boca de Deus.   De qualquer forma, até Saul já começava a crer nisso, mesmo não o querendo…

Paramos então para analisar uma questão de sobrevivência.   Como viveriam Davi e seus 600 homens?   Eles precisavam comer; muitos não eram sós – tinham suas famílias e precisavam angariar recursos para ter algo para as sustentar, nos lugares onde as haviam deixado.

Na realidade, aquela situação os estava levando a uma vida um tanto desconfortável, e até mesmo inconveniente no que tange a uma relação conjugal e de relacionamento com suas famílias.   Eles eram, afinal, os proscritos do reino de Saul, e ainda assim faziam o trabalho de bons súditos, pois que estavam fazendo o papel de guardas da fronteira sul do território de seu povo. Assim o faziam, de dia e de noite, como se fossem vigilantes contratados.

Dignos eram eles de toda admiração da parte dos que eram beneficiados pela sua presença. Não somente pelo papel que desempenhavam, mas também pela maneira hostil como foram obrigados a fazê-lo, e faziam-no amigavelmente.   Além do mais, a simples promessa de Deus de que Davi um dia seria o seu rei, já era o suficiente para inspirar todo o maior respeito que lhe era devido.

Na região pastoril do Carmelo, certo dia, um homem morador da aldeia de Maom, (13,5 Km ao sul de Hebrom) que tinha suas amplas posses naquela região, estava com seus empregados a tosquiar ovelhas, e aquilo trazia um certo clima de festa em família.   Seu rebanho chegava à cifra de três mil cabeças.

No caso de uma invasão proveniente do sul através do deserto, os amalequitas encontravam aquela brecha costumeiramente desguarnecida por Saul como se fora um corredor perigoso.   Ataques poderiam ser desferidos a qualquer momento, e sem aviso, deixariam aqueles proprietários de rebanhos à mercê de seus cobiçosos inimigos – mas não com os homens de Davi ali, a patrulhar naquelas proximidades.

Davi, pois, sentindo-se bem relacionado com os servos daquele homem chamado Nabal, e que estes nenhuma reclamação lhe demandavam, enviou dez rapazes para saudá-lo, para pedir-lhe, não uma esmola, mas uma mostra espontânea de reconhecimento pelo bem que lhes fazia.

A reação de Nabal lhes foi nada agradável.   Ingrato. Ríspido.   Mal educado.   Truculento.   Injusto. Ofensivo, para completar as definições de uma tão malfazeja recepção.   Não reconheceu o privilégio e nem o favor que Davi lhe fazia diariamente, humilhou-os publicamente sem nenhum constrangimento, e despediu-os de mãos vazias.

Que falta de bom senso! Salomão, mais tarde, chegou a assim comentar atitudes desta natureza:

“Porque o desvio dos tolos o matará, e a prosperidade dos loucos os destruirá.” (Provérbios 1:32)

Esta insensatez de Nabal quase custou a vida de todos os homens de sua casa.

Davi, ofendido e humilhado, ficou inconformado. Mais do que isto, ficou furioso.   Uma revolta tomou conta do coração do ungido de Yaweh, ao ponto de desejar vingar-se imediatamente, em resposta à afronta que recebera daquele patrício seu, de quem esperava coisas melhores.

A loucura de Nabal provocou a Davi e quase o conduziu a um erro fatal e lamentável.

Disse ele a quatrocentos de seus homens: – “Ponha cada um a espada na cintura.” E assim eles fizeram, e Davi também pôs a sua.

Aquela circunstância, porém, não foi assistida passivamente por um servo de Nabal.   Aquele servo, conhecedor mais profundo daquela situação do que seu senhor, sentindo que uma desgraça estava para se desabar sobre toda a sua casa, ficou estressado.   No fundo, um desespero começou a tomar conta de seus pensamentos, prevendo que dentro de pouco tempo ele, juntamente com seus companheiros, e inclusive seu senhor, seriam todos mortos à espada.   Quem sobreviveria?   Como saber?   Quando a fúria de um grupo de homens destemidos como os de Davi estava para ser extravazada, tudo poderia acontecer… de ruim, para todos quantos estivessem próximos à sua espada.

Uma pessoa que pensa, apavorado, em salvar sua própria pele, teria simplesmente tomado a iniciativa de fugir o mais rápido possível daquele lugar, deixando para trás quem estivesse duvidando do que estaria por acontecer…   Discutir com Nabal seria perda de um precioso tempo, e um desgaste inútil.   Mas aquele servo, movido por um tirocínio acurado, inspirado pelo Deus de toda justiça, sabendo quem era a mulher de Nabal, e que ainda havia tempo e a possibilidade de salvar a seus companheiros e até mesmo ao seu senhor, decide ir procurar por sua senhora.   Ele tinha esperanças de que ela pudesse ainda consertar aquilo que Nabal havia quebrado.

Caso Abigail não tomasse nenhuma providência, o melhor, àquelas alturas, seria fugir espavorido para qualquer direção onde se pudesse ver a salvo – mas não foi em vão que ele foi à pessoa certa, na hora certa.

Apressadamente, Abigail começa a dar ordens, juntando pães.   Um servo contou duzentos pães prontos.   Enquanto isso, alguém mais ia até onde estava o vinho, e encontrou dois recipientes cheios, e os reuniu aos pães.   Era um dia de festa, e por isto havia ali cinco ovelhas assadas, em ponto de consumo.   Reuniram também mais cinco grandes medidas de trigo tostado.   Ah, mais cem cachos de passas e duzentas pastas de figos secos.

Rapidamente, alguém já havia sido designado para trazer jumentos que pudessem transportar tudo aquilo, e a carga foi atrelada aos animais sem demora.

Nada disse a Nabal.   Para que dizê-lo?   Para provocar uma discussão sem sentido e criar mais um desgosto antes de ver a sua casa toda ser chacinada num piscar de olhos? Era uma emergência, em que não cabiam satisfações ou opiniões pessoais.   Era uma questão de vida ou morte. Não havia espaço de tempo para tolices.   Quem percebeu a conjuntura, sabia que teria que agir com presteza, e guardar as palavras certas para quando chegasse a ocasião.

“Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita na hora certa” (Provérbios 25:11).

Ela conhecia o marido com quem se casara.   Infelizmente, o costume de seu povo e de sua época era que se combinassem casamentos entre os pais dos noivos, onde a noiva não tinha a possibilidade de escolha, e nem de conhecer melhor quem era o homem com quem haveria de unir-se em matrimônio.   Ela podia ser escolhida por sua notável beleza física, mas não podia escolher um noivo que a agradasse.   Assim, ela teve que “engolir goela abaixo” um marido grosseiro, e totalmente incapaz de ter um diálogo com entendimento razoável.   Isto já era motivo de grande infelicidade ao seu coração, mas agora ela teria que tratar daquele assunto à sua maneira, e então pôde provar quanto valor tinha dentro de sua alma.

Lá foi Abigail, então, imbuída da responsabilidade de reverter o destino de várias pessoas, incluindo-se no rol destas com toda a sua alma.   Seus servos iam à sua frente, conduzindo os jumentos, e ela ia imediatamente atrás, montada em seu animal, com o coração cheio de preocupação, preparando um discurso convincente para aplacar a ira de Davi.

Ao descer pela encosta do monte, logo em seu caminho já via a tropa de Davi, que vinha armada ao seu encontro.   Seu coração batia mais forte que nunca.

Ao identificar Davi, ela desceu rapidamente da montaria e foi ao seu encontro, prostrando-se com o rosto em terra. Sinal de reverência.   Respeito por alguém que considera seu superior.

Prostrada aos seus pés, começa falando com a voz emocionada, revelando um espírito aflito diante do que estava acontecendo, mas perfeitamente consciente e tecendo frases muito coerentes.   Ela pede que a ira de Davi, naquele momento, seja desviada de Nabal para ela, que se expunha totalmente dependente de sua mercê.   Disse-lhe ela que Nabal era um homem “filho de Belial” (que por dedução, em hebraico, seria uma pessoa extremamente pervertida); o seu nome, e seu caráter correspondia a esse nome: um tolo, um insensato.

Ela desculpa-se por não ter visto aos servos de Davi, e por isso não lhe foi dada a oportunidade de interagir no ato que provocou o insulto, a tempo de evitar uma reação à altura, mas pede-lhe humildemente que aceite sua oferta como um presente em desagravo ao que foi dito aos dez jovens que Davi enviara a Nabal.

Num discurso dramático, ela pede-lhe, pois, o perdão, uma vez que avoca a si a gravidade da ofensa a que não dera causa, mas que pesava sobre os ombros de seu marido.   Naquele momento, ela assume o papel de intercessora, interpondo-se entre o ofendido e o ofensor, em nome deste último, muito embora sem a ciência deste.

Em continuidade à sua prédica, profetiza a bênção sobre Davi, revela sua fé que o salmista de Belém ainda haveria de ser o rei prometido pelo Senhor a Israel, e diz-lhe que, quando este chegar a ser coroado, não terá lamentado e nem guardará remorsos por haver cometido um genocídio impensado, um ato provocado pela ira passageira, mas que aflorava com toda força naquela hora.

Ela conseguiu, assim, chamar Davi à razão, pedindo-lhe eloquente e ternamente para deixar esfriar os ânimos. Além disso, ela ainda profere que o Senhor haverá de lançar longe os inimigos do futuro rei, tal como uma pedra é atirada por uma funda, quase sugerindo que Nabal também fosse um desses…

Dando plena certeza de que tal se sucederá, ela ainda pede que quando Davi se tornasse rei, que pudesse lembrar-se dela… não com sentimento de culpa por haver cometido um desatino, mas com o prazer em tê-la conhecido um dia, a mulher que tentou, com seu jeito peculiar, contornar aquela situação tão delicada…

Davi sente-se surpreendido por aquelas palavras, por aquela maneira tão cativante e simples, que o seu coração se quebrou.   Sua ira desviou-se e desvaneceu.   Perdeu a motivação para fazer o que estava prestes a fazer, comovido pela atitude daquela pobre, rica e linda mulher, esposa de um homem que não a merecia, e que fizera o que fez, arriscando a sua própria vida para salvá-lo, e à sua casa.

Davi aceita a oferta de seu coração, bendizendo àquela mulher tão sábia e arrojada, que empreendeu tudo que pôde em um lance, a fim de salvar uma causa julgada perdida, e ainda esclarece que teria, sim, tido a coragem e a ousadia de exterminar a casa de Nabal até que amanhecesse o dia seguinte, não fosse a ação tão oportuna de sua esposa.   Disse a ela ainda, para que voltasse em paz para sua casa, pois sua petição estava atendida.

Ao voltar para Nabal, Abigail pôde notar que seu marido estava banqueteando-se com os seus, e muito embriagado.   Nessas condições, ela achou melhor deixar o assunto para o dia seguinte, pois o homem não teria capacidade de medir consequências e aceitar o bom juízo naquele momento.

Pela manhã, porém, ela percebeu que o efeito do vinho já havia passado, e então contou a ele tudo o que se passara, e como agiu naquela instância.

O homem teve um choque.   Tudo indica que sofrera um ataque cardíaco tão forte que ficou paralisado.   Não se movia do lugar para nada.   Perdera as forças.   Seu olhar ficou perdido. Ele não mais parecia um ser humano, pois perdera completamente a saúde e a sanidade. Assim permaneceu durante dez dias, quando o Senhor o recolheu, e ele morreu.

Davi soube daquela passagem, e louvou a Deus, que tomara a sua causa nas Suas mãos, e o impedira de fazer justiça com as sua própria espada.

Não fica explícito por que razão Davi então resolvera pedir a Abigail para ser sua esposa.   Provavelmente ele tenha ficado impressionado com aquela capacidade de diagnosticar um problema intrincado, de raciocinar e tomar decisões rápidas, com aquela humildade tão cativante e com o seu espírito altruísta, que intercedeu pela pessoa de seu ex-marido que sequer merecia ser alvo de sua intercessão.

Abigail provara a Davi que era uma mulher digna de ser a esposa de um rei – sua conselheira particular, entre outras coisas.   Sua beleza física era apenas um detalhe a mais para completar a beleza de seu espírito.   O pedido de casamento que ela então recebera foi apenas uma providência que Deus colocou em seu caminho, o qual ela não somente o aceitou, como o fez com alegria e satisfação.   E Abigail passou a ser a preferida de Davi, que pôde então ser consolado da separação que Saul lhe impusera rudemente entre ele e Mical.

A humildade tem um poder incalculável.   Muitos são os que acham que não devam abrir mão de sua soberba, mas estes estão perdendo a chance de agradar a Deus, que valoriza muito àqueles que são humildes.

“Bem-aventurados os humildes de espírito, porque eles herdarão a terra” (Mateus 5:5).

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados” (Mateus 5:6).

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9).

“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o reino do céu” (Mateus 5:10) .

“Bem-aventurados sois, quando vos insultarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo mal contra vós por minha causa.   Alegrai-vos e exultai, pois a vossa recompensa no céu é grande, porque assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (Mateus 5:11-12)


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