I SAMUEL – XXII – QUANTAS VEZES PERDOAR?

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febrero 24, 2016 by Bortolato

Davi e Abisai e Saul

Esta é uma questão muito discutida.   Há quem afirme que a melhor posição é nunca perdoar.   Outros querem ser um pouco, mas não muito generosos nesta área, e acham de bom tamanho perdoar apenas uma vez.   Neste campo vemos que a ira tem falado mais alto do que a razão.   É muito mais fácil punir um ofensor, ou levá-lo a júri, porque quando o sangue ferve, o que se pede é a vingança.

A verdade é que o ser humano, quando recebe um ato ofensivo, tende a vingar-se.   “Dar o troco” (e quando se sentem em condições de fazê-lo, têm ganas de devolver a ofensa, ferindo ao ofensor superando muitas vezes além do nível do mal que recebeu, seja este material ou moral), como dizem alguns, lava a alma – mas só por um momento.   Este sentimento vingativo revela a fera que temos dentro de nós, e que precisa ser domada.

Ou, dizem outros, “pagar com a mesma moeda” alivia a alma. Esta expressão nos deixa a entender que isto subentenderia o que está escrito na Lei de Moisés: olho por olho, dente por dente.   Menos mau que “dar o troco”, mas esta filosofia ainda está longe da perfeição.

O que muitos não querem saber é que quando se exige que outros paguem por seus pecados, a mesma regra será aplicada a nós mesmos – e quando se trata de como haveremos de ser julgados, desejamos a maior das misericórdias.   Hipocritamente as pessoas ambicionam dois pesos e duas medidas – em seu próprio interesse – e sempre mais uma vez…

Na tentativa de fugir dessa parcialidade de julgamentos, rabinos judeus convencionaram que seria ideal se se obedecesse à regra três.   Tolerância somente até três vezes.   Isso estaria embasado nas Escrituras.   No livro de Amós (1: 3, 6, 9, 11 e 13; 2:1) e em Jó 33:29.

O discípulo de Jesus, Simão Pedro, certa vez fez esta pergunta ao Mestre, lançando a suposição de termos de perdoar até sete vezes, pensando talvez que estaria sendo muito generoso, mas a resposta do Senhor multiplicou setenta vezes a sua projeção.   Quatrocentos e noventa seria um limite?   Se assim fosse, este seria um limite inalcançável, dentro desta hipótese – o que significa que deveríamos perdoar quantas vezes quanto fôssemos demandados. Infinitas vezes, este é o limite de Deus, e esta é a proposta divina para cada um de nós.

Com todas as letras do Novo Testamento, muitos estigmatizariam isso como impraticável… mas pelo poder do Espírito Santo, é possível.   Até para com um inimigo. Aproximemo-nos da história de Davi e Saul.   Quantas vezes Davi perdoou a seu rei, mesmo sabendo que este procurava constantemente a sua morte?

Em I Samuel capítulo 24, Davi teve uma grande chance de matar a Saul em uma caverna de En Gedi, sem que este estivesse em condições de esboçar qualquer reação, mas deliberadamente deixou escapar a oportunidade. Qualquer um teria matado o seu adversário contumaz, e daria um grito de vitória por tê-lo logrado.   Teria sido o seu dia da libertação de uma longa e terrível história de opressão, mas ele decidiu poupar o seu inimigo, malgrado todos os motivos pessoais que tinha para tanto, acumulados em toda a sua vida.

Saul reconheceu o grande benefício que recebera naquele momento, ao ser conscientizado daquilo, e naquele dia desistiu de perseguir a Davi – mas só por aquele dia.

Não bastasse isso ter ocorrido, no entanto, passado algum tempo, Saul voltou à carga novamente.

Em I Samuel capítulo 26, por incrível que pareça, outra vez aquela “oportunidade de ouro” vem às mãos de Davi.   Ele já havia poupado a vida de seu opositor ferrenho por puro amor e fidelidade ao seu rei.   Já havia provado que não merecia o castigo que estava recebendo das mãos de quem deveria tê-lo honrado por todos os feitos que angariara para a glória de Israel.

Saul, porém, parecia ter-se esquecido muito rapidamente o quanto foi amado e poupado pelo seu súdito a quem julgava tão mal.   Permanecia no mesmo erro.   Parece que não iria mais deixar de persegui-lo, apesar de tudo.

Chegou então um dia em que Saul voltava a empreender uma caçada à vida de Davi.   Não tinha mais motivos para tanto, mas quando um espírito de acusação injusta pousava sobre ele, não reagia ponderando.   Se é que ponderava, suas ponderações eram:- queria a cabeça de Davi, era só o que ele queria. Era uma ideia fixa. E seus conselheiros não o dissuadiram a mudar de ideia, mas muito pelo contrário.   Reforçavam esse mau intento de seu rei, concordando com ele, que buscava justificar-se buscando achar erros no seu ex-comandado até mesmo onde não havia erros.   Não admira que Davi tivesse de cair na clandestinidade, para se por a salvo… não lhe restava outra opção.

Outra vez os zifeus então denunciam os locais por onde Davi e seus homens costumavam andar. Disseram-lhe que Davi estaria nas proximidades do monte Haquilá, no deserto de Zife.   Os zifeus não tiveram compaixão de um homem que foi acompanhado de outros homens em busca de um livramento de Deus para poderem sobreviver.   Não atinaram para o fato de que estavam usando de mexericos que poderiam levar alguém à morte sem motivo justo para isto.   Queriam apenas crescer aos olhos de Saul, ou por temor ao pátrio poder…

A prudência, porém, estava ao lado de Davi, que mantinha espias no deserto, os quais anunciaram-lhe a chegada de Saul com mais os três mil homens de sua escolha seletiva.

Desta vez, Saul estava disposto a posicionar-se no deserto, buscando postar-se em um lugar estratégico para encontrar-se com Davi, e, em chegando ao monte de Haquilá, ali resolveu acampar-se.   Aquela companhia de manobra militar então achegou-se, montou suas barracas fincando suas estacas, organizando-se para passar alguns dias por ali.

Outra vez a aridez do deserto, depois de uma viagem debaixo de um calor escaldante, fez com que os homens de Saul, e até ele mesmo, estivessem desgastados.   Contingências das atividades de um rei.   Certamente já havia chegado ali depois de um período de contínuos esforços estressantes, e julgou que iniciar assim a sua campanha contra Davi poderia ser um esforço baldado, quando não desastroso.   Além do mais, as sombras da noite já haviam chegado. Procurar por Davi no meio da escuridão era algo que certamente que não daria certo.   Deu ordens a todos, então, para descansarem, a fim de angariarem forças para o dia seguinte.   Essa sua estratégia, porém, não funcionou, pois foi frustrada toda aquela campanha em um momento.

Durante o dia, enquanto o exército de Saul estava entretido, procurando concentrar-se na tarefa de estender suas tendas naquele local, ninguém deles percebia que estavam sendo observados.

A tenda de Saul era uma grande tenda aberta nas laterais.   Ao sentir-se à vontade, Saul deita-se ali, debaixo de sua sombra, juntamente com seu general Abner, e seus homens todos estavam acampados ao seu redor.

Davi mesmo foi até um lugar propício para espionar para, escondido, observar a posição de cada tenda que ali havia sido montada.   Sua visão militarista logo notou que Saul e Abner estavam dormindo, e não havia sentinelas para vigiar aquela tenda do comandante. Uma falha de defesa que apareceu-lhe aos olhos.

Passar pelo meio das tendas dos comandados e chegar até a do comando naquela noite, por um descuido da guarda, tornara-se repentinamente uma tarefa até certo ponto fácil para um guerreiro experimentado.   Tudo estava quieto, e, ao que parecia, todos estavam dormindo, cada qual em sua tenda.   Incidência infeliz para Saul, mas muito boa para Davi, que já, em sua ideia, pôde traçar um trajeto sorrateiro e eficaz, aproveitando também a escuridão da noite.   Mas para quê?   Para matar a Saul?   Não.   Não era esta a sua intenção… longe dele sequer intentar tocar na pele de seu rei ungido, o representante legítimo do seu Deus… do Deus a quem Davi tanto ama… do Deus que salva o Seu povo!   Do Deus que muitas e muitas vezes o livrou das mãos de inimigos fortíssimos, dos quais o gigante Golias foi apenas o primeiro da sua lista…

Davi apenas queria que alguém o acompanhasse numa incursão ousada. Coragem era o que não faltava para ele.   Então ele pergunta a dois de seus fieis companheiros, quem estaria disposto a segui-lo até ali, ao centro do “covil dos lobos”.   Abisai, um sobrinho seu, filho de sua irmã Zeruia, então se prontifica a descer àquele desfiladeiro e ser seu guardião solidário.

Apesar das circunstâncias parecerem favoráveis, aquela manobra não deixava de ser muito arriscada.   Um passo em falso, e… os dois espertos poderiam tornar-se em vítimas de sua audácia.   Mas parecia que isso não era tão importante para Davi.   Ele parecia antever algo, e sentir que a mão de Deus era com ele.

Absai acompanha-o bem de perto, e ambos alcançam a tenda do comando.   Absai vê a lança de Saul fincada na terra ao lado da sua cabeceira.   Ele viu a situação tão favorável para se matar ao rei que almejava a desgraça de Davi em um só golpe, que não pôde deixar de sugerir isso.   Seria tão fácil, naquela hora, mas não poderiam hesitar. Aquela era uma hora aberta e convidativa para tanto, e tudo ficaria melhor para ele mesmo, e também para Davi.

Davi, mais uma vez, porém, deteve seu companheiro, apelando para a fé em Yaweh.   Saul era o ungido de Yaweh, e por isso não deveria ser molestado, e muito menos assassinado naquelas condições, sem possibilidade de defesa.   O Senhor haveria de cuidar de Saul, quando chegasse o dia em que este descesse para alguma batalha, mas não seria aquela a hora.

Davi via em Saul a marca de Deus em sua vida. Parecia que Davi olhava para Saul e podia ainda enxergar a unção com óleo que desceu de sua cabeça, com o óleo que Samuel despejou sobre ele.   Davi via coisas boas em Saul.   Via naquele seu rei um homem corajoso, valente, defensor de seu povo, que ao defender o seu povo das mãos de inimigos, estava também defendendo sua família, seu clã e seus pais… isto falava fortemente ao seu coração, muito embora outras coisas tivessem mudado este detalhe.

O fato é que Saul era o representante oficial de Deus para chefiar o povo de Israel.   Matá-lo, aproveitando-se de um descuido de sua guarda, não seria uma glória, e nem uma boa coisa para quem o fizesse.   Davi não queria ser o seu carrasco, e nem permitiria que um de seus homens o fosse, isto já estava decidido em seu coração.   Não seria a sua mão contra aquele que o seu Deus levantou para guiar o seu povo às guerras.

Davi pede a Abisai que pegasse a lança de Saul e um jarro de água que estava à sua cabeceira, o que assim foi feito, e ambos imediatamente se retiraram.

Ninguém os viu. Nenhum soldado de Saul acordou naquela hora. Tudo correu de modo estranhamente fácil, que nem parecia ser verdade.   Os homens de Saul dormiam profundamente, e os dois invasores do acampamento acabavam de fazer uma proeza que mais lhes parecia um sonho do que uma realidade, levando nas mãos a lança e o jarro de água do seu rei.   Não precisaram beliscar-se um ao outro para provar a si mesmos que estavam acordados e não sonhando, pois eles portavam em suas mãos aqueles dois troféus, objetos de confirmação de que o que fizeram foi real, não um sonho, e podiam comprovar isso.

E Davi o comprovou – a quem? – ao próprio Saul.   Levando nas mãos aquela arma real e aquela jarra, os dois heróis subiram o monte com seus corações exultantes até o topo, e dali, a uma boa distância, vendo-se seguros, viram-se na hora de despejarem a verdade.   Voltaram-se para o vale e Davi gritou bem alto, para todos ouvirem.

Davi começa sua fala, reprovando o esquema de segurança que Abner, o general de Saul, havia montado naquele lugar.   Esquema falho, completamente.   Um erro crasso na ação de um general tão experiente!   Faltou a prudência imprescindível para uma campanha de guerra contra um inimigo.

Tal falha, ao parecer de Davi, seria imperdoável.   Um descuido que poderia ser classificado de crime de guerra, comparável a uma traição, pois facilitou a invasão de um inimigo, muito embora não o tenha falhado conscientemente – e muito embora aquilo não tivesse tido um desfecho fatal, ou seja, seguido da morte do rei, e do próprio general que estava ao seu lado.

Não terminou em uma fatalidade, porque Davi olhava para Saul, seu rei e inimigo feroz, sem esquecer da fidelidade do Senhor que ungiu a ambos, e sem esquecer-se da lealdade que devia ao seu monarca.   Talvez pareça um tanto sem sentido ou até ridículo pensar assim, mas Davi aprendeu a amar a Saul, e jamais o desaprendeu, mesmo nas horas mais difíceis.

Tudo o que Saul lhe fizera, deixara Davi muito preocupado, muitas vezes estressado, em escapadas desesperadas, muitas vezes até fazendo-o infeliz, mas não tanto ao ponto de esquecer-se de que Deus era o seu grande defensor, e que tinha lindas promessas a respeito de sua vida.   O Espírito do Senhor o testificava dentro de seu coração, e não havia engano nisto.   A realidade da necessidade de fugir, fugir e fugir de Saul ainda continuava ameaçando-o, como uma serpente que o cercava em posição de dar um bote, isto não podia ser negado, era terrível, era um pesadelo, mas as palavras do Senhor para a vida de Davi eram o bálsamo que curava a sua alma. E assim ele encontrava forças para prosseguir sua jornada.

Davi então desafia o general Abner a encontrar a lança e a jarra de água do rei, que dantes se achava à sua cabeceira.     Não estavam mais lá. Este era o sinal de que alguém havia estado ali, e as havia levado.   Era intuitivo que fora o próprio Davi, e/ou algum de seus homens.

Saul reconhece a voz do seu ex-correligionário, e chama-o de seu filho…

Davi, por isso mesmo, fala com Saul, exortando-o a buscar a Yaweh para acalmar o seu espírito atribulado, que o movia àquela descabida perseguição; e amaldiçoando também aos homens que o incitavam a debater-se daquela forma, pois que estavam obrigando-o a sair dos termos de Israel, para que ele fosse morar em alguma terra do exílio, onde não se adorava a Yaweh, o seu único e querido Deus.   Eles estavam caçando a quem não representava nenhum perigo ao reino de Saul, tanto quanto uma pulga, ou uma perdiz nos montes…

Saul reconhece outra vez que pecou gravemente contra alguém a quem considerava inimigo seu, mas que o amava ao ponto de perdoá-lo, e poupar a sua vida tendo uma segunda chance para iminentemente matá-lo sem nenhuma dificuldade, mas não o fez.   Pede-lhe, então, o rei, que Davi volte, prometendo que não voltaria a lhe fazer o mal.   Promessas… apenas palavras… quem faltou com a palavra uma, duas , ou três vezes, como poderá dar garantias de que cumprirá de fato suas promessas?

Davi então pede que algum dos servos do rei fosse buscar a famosa lança e a jarra sequestradas, ali onde as estava deixando, enquanto ele tratava de fugir novamente. Que o Senhor julgasse entre ambos.   Saul outra vez reconhece que Davi haveria de prosperar como o ungido de Deus, abençoando ao seu suposto inimigo, e desiste mais uma vez de persegui-lo, surpreendido em seu erro, talvez até um tanto envergonhado do que fez – por ora.

Esta narrativa nos deixa a pensar.   Pensar se não encarnamos por vezes um personagem à maneira de Davi, ou à de Saul. Os escritos bíblicos não estão no papel apenas para nos entreter com um drama ou um romance.   Não são inventados, foram fatos reais que ocorreram, de modo que não custa ao homem rearticular e fazer reviver situações semelhantes.   São palavras inspiradas por Deus para nos instruir e mostrar exemplos positivos e negativos.

O amor e o perdão estendido a inimigos pode ser um exemplo raro no Antigo Testamento, mas é muito bem claro e exposto no Novo.

“Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo.   Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos eu vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está no céu…” (Mateus 5:44-46a)

“Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai perdoará vossas ofensas” (Mateus 6:14-15)

A nós cabe decidirmos o que faremos de nossos inimigos.   Amá-los e perdoá-los ou odiá-los.   Deus nos deu esta escolha nas nossas mãos.   Algumas coisas não estão no nosso condão, podermos optar por esta ou aquela alternativa, mas amar ou odiar está ao nosso alcance – privilégio dado pelo Altíssimo, dando-nos a chance de exercitarmos o amor, e nos tornarmos semelhantes a Ele, que é perfeito.   Podemos não ser perfeitos como Ele é, mas somos exortados a sê-lo:

“Sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celestial.” (Mateus 5:48)

“Quem é sábio, atente para estas coisas, e atente para as misericórdias do Senhor” (Salmo 107:43)

 

 

 

 


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