II SAMUEL – IV – ENTRE INOCENTES E CULPADOS

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Mayo 2, 2016 by Bortolato

Os inocentes sempre terão que pagar pelos pecadores?  Isso não é justo, mas é o que acontece muitas vezes.   Quantas crianças não pagam caro, até mesmo com a própria vida, quando, por exemplo, estoura uma guerra… ou mesmo quando alguém se determinou a ir até o fim,  até alcançá-lo no firme propósito de executar um genocídio…

Quantas pessoas morreram nas cidades de Hiroshima e Nagasaki quando aquelas bombas atômicas foram ali lançadas – simplesmente pelo fato de habitarem em um lugar sob o domínio do Império do Sol.   Qual a culpa que elas retinham sobre si, para receberem uma sentença capital tão sumária, e sem nenhuma chance de escape ou defesa?   E que culpa tiveram os americanos que morreram devido ao ataque fulminante de Pearl Harbor?  Ambos os lados sofreram graves perdas, e ambos argumentariam mil razões para defenderem suas causas – tudo por causa de uma guerra que se desencadeou no mundo.

Adolf Hitler não sentia nenhuma culpa por ter dado início àquele conflito mundial.   Milhões e milhões morreram naqueles dias terríveis que nosso globo viveu, mas para o ditador alemão, todos os contrários ao seu governo deveriam ser aniquilados – principalmente os judeus, os negros, os ciganos e outros e mais outros – sua lista negra aumentava a cada dia.   A seu ver, ele estava totalmente correto, e o restante do mundo, errado.   A perda de milhões de vidas inocentes, sob seu ponto de vista, não era muito importante.   Era apenas um pequeno detalhe que despontava em meio ao seu caminho ambicioso.

Importante, para o Füher, era dominar na guerra, matando tantas vidas quantas fossem necessário para que ele continuasse a vencer e dominar cada vez mais.   Sua saga foi regada com muito sangue de vítimas inocentes.   E a quem pertence a culpa?

No tocante à guerra do Pacífico, quando o presidente Harry Truman ordenou o bombardeio atômico sobre aquelas duas cidades japonesas, o imperador Hirohito caiu em si, e declarou sua rendição incondicional.   Até então, muitos americanos já haviam morrido, e muitos japoneses também, mas daí em diante, a razão prevaleceu, pelo amor às vidas que ainda restavam.   Com um acordo selado, terminou a guerra, e já não havia mais nações inimigas dispostas a se degladiarem.

Estados Unidos da América e Japão hoje convivem em plena paz.   Hoje não haveria mais razão para continuarem aquela malfazeja guerra.   Se algum desses lados quisesse matar pessoas daquela nação que lhes oferecera resistência no passado, isto seria um golpe traiçoeiro, uma vingança que suscitaria um novo conflito.   Seria um rompimento da paz sem nenhuma justificativa.

Infelizmente, foi o que houve quando analisamos a maneira como findou a guerra interna que durou cerca de dois anos, entre as forças de Davi e as de Isbosete, conforme depreendemos do capítulo 3º do livro de II Samuel.

O general Abner, depois de ter tido alguns reveses diante das tropas de Davi, voltava para Maanaim, depois de cada confronto, com muitas coisas em mente.    Ele parecia sentir que Davi era realmente um homem abençoado por Deus, um judeu cheio da unção do Senhor, o que estava sendo demonstrado visivelmente, combate após combate.    Abner já sentia que estava lutando do lado errado.   Melhor para ele se estivesse ao lado do Salmista de Belém, mas ele sentia que tinha um compromisso moral com a casa de Saul.   Ele lutara muitas e muitas  vezes ao lado de Saul, nutrindo um sentimento patriótico muito forte dentro de seu espírito.  Para ele, lutar pelo povo de Israel era lutar ao lado de Saul… e Isbosete era o filho de Saul que restou vivo da peleja de Gibeão.   Continuava, pois, Abner a pelejar por Isbosete, tal como o fizera pela coroa de Saul, pensando estar agindo corretamente.

Mas os tempos trazem mudanças que não prevemos em nossos caminhos, e assim…

Após ter acontecido um episódio inóspito entre Abner e Isbosete por causa de Rispa, a ex-concubina de Saul, o que teria provocado um clima de desconfiança naquela corte, tudo ficou diferente, chegando a propiciar uma mudança de posicionamento no general repreendido.   Foi uma discussão constrangedora.    O ambiente ficou carregado de desconfianças e de palavras ríspidas.   Em poucos minutos, foram destruídos anos e anos de uma convivência amistosa e de cumplicidade.

O caso foi recheado de melindres: é que, uma vez possuindo a ex-mulher de Saul, Abner, plenamente consciente do que fez ou não, colocou-se na posição de pretendente à sucessão do trono do rei morto.   Este era um costume local, da época.    Não cremos que Abner teria premeditado isso, pois sua fidelidade à casa de Saul sempre tinha sido imaculada até então.   Ao que tudo indica, foi uma fraqueza do general,  a qual não foi perdoada por Isbosete.

Sentindo-se pressionado, Abner, então, conclui que não poderá mais permanecer ao lado do filho de Saul, pois fora surpreendido em uma falha julgada como alta traição, um atentado sutil e estratégico, característico de quem tem desejo de usurpar o trono.

Abner jamais pretendera apoderar-se da coroa, de uma forma tão sutil, porque era um homem de guerra, da força, e se quisesse tal coisa, não o faria do modo mais suave.    Ele tampouco se conforma com o rigor com que fora julgado, sentindo-se até mesmo humilhado pela maneira com que foi tratado por Isbosete.   Sentiu que perdeu a força que tinha diante de seu senhor, e mais: que não tinha mais condições de lutar pela casa de Saul.   Dali em diante, seria sempre olhado com maus olhos da parte deste e daquele, por causa do incidente havido.   Se Isbosete tivesse herdado de seu pai o mesmo espírito de ciúmes da coroa, e de extremo perseguidor dos que apenas deixassem fracas pistas indicativas de uma possível usurpação, ainda que por apenas descuidar de simples aparência do mal, a vida de Abner já estaria correndo perigo.  Ele sabia, de qualquer modo, que passou a ser figura indesejável, uma persona non grata no reino de Isbosete.

Vendo-se em aperto, Abner vislumbrou apenas uma solução para o seu caso:  desertar.  Desertar e passar para o lado do ungido de Yaweh, cujas mãos eram sempre vencedoras em cada batalha.   Afinal, lutar por Davi, bem como lutar por Isbosete, era lutar pelo povo de Deus, pois não extrapolaria as fronteiras de Israel.  Ele não pensou mais sobre o caso, e logo já foi anunciando a Isbosete a notícia que denotaria sua total despretensão quanto à alegada estratégia de escalada para o trono.

Aquela renúncia ao cargo de general foi como água fria sobre a fervura.  Isbosete então sossegou quanto à possibilidade de estar sendo usurpado, mas, por outro lado, ficou muito preocupado, pois sabia que estava perdendo um forte braço defensor.   Abner era muito conhecido e influente em Israel.   Além disso, era homem forte, valente, ousado e muito experimentado em guerras.

Abner então se põe em ação.   Seu intuito seria o de entregar pacificamente o poder de toda a nação nas mãos de Davi, fazendo cessar toda aquela guerra que, chegara à conclusão de que não passava de uma insensatez para a qual ele mesmo havia contribuído, por não atentar em fazer a plena vontade de Deus, ao invés da sua.   Se Isbosete quisesse ainda guerrear contra Davi, isto seria uma questão a ser decidida pelo  filho de Saul, mas não seria mais uma questão para Abner.

Ele envia mensageiros a Hebrom, dizendo que, apenas mediante uma aliança a ser realizada entre ambos, passará a trabalhar para fazer o coração do povo todo de Israel inclinar-se diante de Davi.   Era uma proposta razoável, e tinha todas as condições de ser cumprida.   Consciente de que tal aliança lhe seria não apenas uma saída honrosa, mas também uma oportunidade de acabar com uma guerra descabida, e de continuar a ser o general dos exércitos do povo de Israel,  Abner sente-se então no caminho certo, que passou a sentir-se novamente seguro, e dentro da vontade de Deus.

Davi então lhe responde que o aceitará, mas somente se o general trouxer Mical, a filha de Saul com quem se casara, para a sua casa em Hebrom, sob o argumento de que já teria pago um dote todo especial: duzentos prepúcios de filisteus.  Esta exigência era mais que um protocolo diplomático – era o coração de Davi, que ainda se recordava com muito carinho das lembranças de seu primeiro amor direcionado a uma mulher.   Davi recordava-se até com um certo sentimento de frustração o fato de ter sido forçado a separar-se daquela que foi sua primeira esposa, a primeira de toda sua vida…

Davi então resolve escrever uma carta a Isbosete,  solicitando pela esposa que lhe havia sido tomada sem nenhum motivo legal, e conta com um mensageiro mais que especial:  Abner.   É interessante e muito digno de nota que Isbosete prontamente atendeu ao pedido, não interpondo nenhum óbice à pretensão do rei Davi.   Sinal de respeito para com aquele ex-companheiro e combatente, que antigamente cooperava com o cetro de Saul de forma tão excepcional.

Depois que Davi teve que abandonar sua antiga esposa, Mical, o rei Saul, por puro desmando e pirraça, desejando espezinhar o coração do então jovem seu comandado, deu-a a um outro homem, chamado Paltiel.    Aquele ato maldoso de Saul teria complicado as coisas, pois Davi demonstrava que ainda amava àquela filha de rei que zelou para salvá-lo das mãos tiranas do próprio pai; mas o momento já não era mais do mesmo contexto, pois havia um grande apego de Paltiel com Mical, o que demonstrou, na ocasião, que este era um caso em que as coisas deveriam ter sido deixadas como estavam.  Que aquela antiga união matrimonial fosse esquecida, pois foi substituída por outra.  Deuteronômio 24:4 proibia que casamentos desfeitos e sucedidos por outra união, fossem restabelecidos.    Foi um momento infeliz para Paltiel e para Mical, a qual mais tarde deu mostra que não mais amava a Davi como antes.

Abner então comparece perante Davi, trazendo-lhe Mical como prova de sua submissão, e estabeleceram aquela aliança.   Fizeram um banquete, em comemoração ao evento.   Tudo parecia estar andando muito bem.   O que Davi não conseguira através da espada, parecia agora estar-se lhe apresentando como maçãs de ouro sobre salvas de prata, um presente que lhe prometia uma conquista sem derramar de mais sangue.

Abner, animado, então diz a Davi que fará o que prometeu:  que logrará reunir todo o Israel junto ao belemita, e o reino davídico seria ampliado por toda a nação, unificando-a, e assim cumprindo a profecia de Deus dada a Samuel sobre Davi.   Aquilo parecia ser a realização de um sonho, que estava desabrochando como uma flor, com beleza e perfume…

Uma pedra de tropeço, porém, sempre pode aparecer quando as coisas vão bem.  É preciso ficar atento a isso.  Mesmo após dois anos decorridos em que a guerra interna persistia, e passadas muitas das mágoas das perdas – que, aliás, havia de ambos os lados – alguém ainda não se havia esquecido de que Abner fora o autor da morte de Asael: os irmãos deste,  Joabe e Abisai.

Ah, a mágoa!   Mágoa que não pondera as razões da parte que trouxe perdas para os corações prejudicados por alguma coisa havida no passado…   Pensando bem, se Deus quisesse lavar com sangue todas as mágoas que os homens Lhe causaram, este mundo já não mais existiria – exceto por um detalhe: Quem Se dispôs a lavar tudo com sangue, foi o Filho de Deus, com o Seu próprio sangue inocente.   Ele quis pagar as culpas cabidas a nós, pecadores.

Abner, depois daquele banquete faustoso em Hebrom, estava confiante de que as guerras entre a casa de Davi e a de Isbosete estariam praticamente reduzidas a nada, mas ele não havia contado com um detalhe: tudo que ele tratara, fora tratado com Davi, mas não com os filhos de Zeruia.

Assim foi ele, pelo seu caminho para casa, confiante e disposto a ser um elemento chave que faria o papel de intermediário para conduzir o restante de Israel a Davi.   Estava satisfeito e feliz com o resultado daquela sua viagem, vendo seus planos começando a dar certo.   Ele voltava para as terras do norte de Israel com o coração em paz, mas não contava que os corações de Joabe e de Abisai, que não estavam presentes na ocasião da celebração da aliança e nem daquele banquete, e ainda estavam em pé de guerra contra ele.  Aqueles dois judeus não haviam perdoado a Abner por haver matado ao seu irmão Asael.

Tendo chegado de uma campanha militar, sabendo da celebração daquele pacto, Joabe foi  discutir com Davi, tentando dissuadi-lo de que havia trama e traição no coração de Abner, e que aquela aliança nada mais seria senão um estratagema malicioso oriundo de uma extrema fidelidade à casa de Saul.   Esta tese, porém, nascia furada, pois que o general de Israel havia estado em paz em Hebrom, concordara com a unção real sobre a cabeça de Davi, e prometera que iria trabalhar para a unificação do reino davídico.   Nem Abner e nem Davi eram homens de duas palavras, e no contato que mantiveram, notara-se sinceridade de ambos os lados.  Não havia nenhum sinal de estranheza em tudo aquilo.   Os motivos de Abner foram perfeitamente compreendidos por Davi, que soube da história e do caso Rispa, de modo que ele nem quis discutir muito com Joabe acerca daquela ideia absurda de armadilha…

Joabe sai da presença do rei Davi, sentindo que aquela aliança não seria desfeita por seu rei e, vendo que não fora convincente em seus argumentos acerca daquelas desconfianças, resolve tomar suas próprias providências para vingar o sangue de seu irmão que tombara no campo de batalha.    Ele envia alguém para chamar a Abner de volta a Hebrom.   O mensageiro consegue alcançar a Abner junto ao poço de Sirá, e este dali voltou – e sem nem perceber que estava sendo envolvido em uma trama de morte.

Chegando às portas de Hebrom, Abner é chamado à parte, para conversar “em segredo” com Joabe no interior do átrio daquela cidade.

Abner, ainda alegrado pelo vinho do banquete, estava com o seu espírito desarmado, não calculando a conspiração que estava havendo naquele momento.   Como um peru que bebe aguardente no dia em que está para morrer, desprovido de malícia, sozinho, foi ao encontro de quem o chamava.   Com a ajuda de Abisai, então, recebe de Joabe um golpe fatal no abdômen.   Assim como Asael morreu ferido no abdômen, assim também morreu Abner ali.

Um crime covarde, sem nenhuma base de sustentação legal.    Hebrom era uma das cidades de refúgio, onde os réus acusados de homicídio eram acolhidos em paz para serem julgados.   Ao serem julgados  tais homicidas, e constatado que não houvessem cometido crime doloso, seriam certamente absolvidos, na forma e com todos os direitos que a Lei de Moisés o permitiam.

Abner matara a Asael, sim, mas em defesa própria, no calor de uma batalha árdua.  Não havia cometido crime algum, pois aquilo tinha sido uma consequência previsível de uma guerra.   Abner não poderia ter sido morto assim, pela mão do vingador, numa cidade de refúgio, à traição, e sem sequer ser citado para um julgamento.   Infelizmente as coisas correram de forma a fazer com que um inocente morresse como se fora culpado.   Lamentável foi essa atitude de Joabe e de Abisai.

É uma atitude desprovida de bom juízo.   No lugar onde deveria haver justiça e misericórdia para com alguém que matou para defender-se de um ataque rápido, direto e da parte de um guerreiro muito eficiente em combates, foi morto o inocente,  e sem julgamento.

Na casa onde deve abundar a misericórdia do Senhor, onde todos são réus em busca de um refúgio, não deveria haver também lugar para ressentimentos e vinganças.   Na casa onde é adorado o Cristo morto em nosso lugar, por nossos pecados, não é lugar onde deva haver perseguições, injustiças, e desamor, pois todos foram lavados pelo sangue remidor derramado na cruz do monte Calvário.   Sabemos que só o amor constrói, mas a recíproca também é verdadeira: a falta de amor destrói, e mais do que isso, ela mata, assim como Joabe fez na porta de Hebrom.   Não sejamos infelizes como Joabe, mas como Davi, que esqueceu-se das disputas do passado, e celebrou com uma festa a adesão de Abner, tal como o pai festejou a volta do filho pródigo.

Davi, ao saber do fato daquele ardil de morte, ordenou que  Joabe, bem como a todos o que com este estavam, rasgassem suas vestes, e fossem cingidos de saco, para seguir à frente do esquife que levava o corpo de Abner para a sepultura – e pasmem – pranteando aquela desdita!

Para deixar bem claro que o rei nada teve a ver com aquela morte sem sentido justificado, Davi chora e dedica palavras de louvor a Abner, que revelavam sua admiração por um homem de bem, um homem honrado.  Para completar seu sentimento de nojo pelo malfadado fim da vida de alguém que muito pelejou por Israel, e com quem estava para recomeçar uma vida de paz, Davi ainda permaneceu em jejum até o final do dia.   O povo todo entendeu o coração do rei de Judá, e se solidarizou com este.

Que nas nossas casas, nas nossas congregações, e nas nossas vidas haja o perdão mútuo, a aliança firmada sobre o sangue do Redentor, Jesus, e que toda ofensa seja depositada aos pés da cruz do Senhor.   Que haja vida, e não o princípio da morte, nos corações.   Haja amor, consertos de uns para com os outros, aliança, recomeços, e não o desejar o fim, por rixas, discórdias, ou falta de amor.   Jesus é vida, e vida em abundância!   Os perdoados por Seu amor que souberem imitá-Lo, gozarão de muitas alegrias nesta Terra, e por fim, a vida eterna com Deus.

 

 


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